AUTORA - Wanilda Vale

E-mail - wanshipper@yahoo.com.br

Disclaimer - Os personagens desta estória são de propriedade de seus

criadores e empresas e não há intenção alguma de obter

lucro através deste conto, que se destina unicamente à

diversão dos fãs.

Classificação - Shipper

Sinopse - Dana Scully descobre que existe uma mulher na vida de

Mulder. Sua vida, a partir de então, transforma-se só

em saudades e ruínas...

 

 

RUINAS DE UMA PAIXÃO

 

 

 

O Quartel General do FBI está em agitação.

Funcionários caminhando em todas as direções.

Elevadores descendo e subindo lotados.

Uma azáfama em dobro motiva a admiração até àqueles que vivem no Bureau há

algum tempo e conhecem seu constante movimento.

 

Ao tilintar do telefone Dana, em sua sala, toma a aparelho para atender à

chamada:

- Agente Scully.

 

- O Agente Fox Mulder, por favor.

 

- Ele não se encontra no momento. Aqui é a parceira dele falando. Deseja

alguma coisa, senhora?

 

- É claro que desejo! - usa frieza na voz - A que horas o Fox estará aí?

 

- Bem... ahn... não sei ao certo. Ele deve chegar às 10 horas.

 

- Deve...?! Mas então a senhora não tem certeza? O que eu preciso falar é

urgente!

 

- Mas senhora, se precisa falar alguma coisa, por que não diz a mim seu

problema?

 

- Olha, Agente...? - fica aguardando uma resposta.

 

- Scully.

 

- Muito bem, Agente Scully, meu caso com o Agente Mulder é particular.

Não tenho nada a ver com o FBI e etc! É somente com ele, Agente Scully.

Obrigada.

 

Dana ouve o telefone ser desligado num ímpeto.

"Engraçado, - começa a pensar - ... o Mulder não tem casos

particulares! Não que eu saiba...

X x x x x x x x x X

 

 

A sala mal iluminada ainda deixar ver a desorganização que grassa dentro do

ambiente. Neste dia que apenas começa, um amontoado de pastas está jogado ao

chão, displicentemente, enquanto outra pilha delas equilibra-se

perigosamente sobre uma ponta da mesa.

 

Mulder examina atentamente uma das pastas, desfolhando-a impacientemente.

 

Dana, sentada numa cadeira ao lado da mesma mesa onde encontra-se o Agente

tem sobre os joelhos uma pasta aberta onde pesquisa algo detidamente.

 

Sem qualquer aviso a porta é aberta e alguém entra por ela, apressadamente,

detendo porem os passos a seguir:

 

- Fox?

 

Mulder e Dana, como dois autômatos, simultâneamente levantam o olhar para a

pessoa que acabara de entrar na sala e que o chama pelo nome tão

familiarmente.

 

Uma mulher bonita, de cabelos escuros e encaracolados, elegantemente vestida

e sem nenhum sorriso no semblante frio, está diante deles.

 

-Ah... olá... tudo bem? - Mulder ensaia um cumprimento.

 

Dana nota que Mulder está visivelmente embaraçado. Seu tom tímido faz

perceber o quão é indesejável a presença daquela mulher ali.

- Ahn... Scully, - apresenta a mulher à sua parceira - esta é uma

amiga...

 

- Anne Leinster. Já nos conhecemos, Agente Scully. - completa friamente

a recém-chegada.

 

Mulder passa a mão pelos cabelos e rapidamente dirige-se à mulher.

 

- Bem... Scully... por favor, espere-me um pouco que já volto aqui.

Preciso dar uma saída, ok?

 

Dana franze os lábios numa atitude crítica e cruza os braços aguardando o

restante das explicações do parceiro.

 

Este, sem mais nenhuma palavra, deixa a sala quase arrastando consigo a

amiga que havia chegado.

 

A mulher acompanhando os passos rápidos dele segue-o sem protestar.

Sua estatura mediana, corpo bem proporcionado e as pernas bem torneadas,

chamam a atenção de Scully. Uma lufada de ciúme volteia por sobre a sua

cabeça, como um redemoinho, atordoando-lhe os sentidos.

"É... Mulder ficou tão sem jeito com a chegada dessa mulher aqui...!"

Esses pensamentos vêm à tona em sua mente.

 

X x x x x x x x x X

 

 

A porta da sala abre-se abruptamente e Mulder penetra como um bólido:

- Scully, tudo bem?

 

Ela abre bem os olhos azuis na direção dele:

- Comigo está, Mulder.

 

Novamente a porta é aberta sem que ninguém dê algum aviso antes de entrar ali.

Um homem penetra na sala.

- Agente Mulder, mandou me chamar?

 

- É... Agente Steen... claro, claro! Só um minuto.

Após essas palavras, dirige-se à sua colega:

- Scully... dê-me só mais um segundo... por favor!

Puxa Steen pelo braço para que o acompanhe para fora da sala.

 

Dana já sente algo a corroer-lhe as entranhas. Não sabe ao certo que

sentimento está tomando conta do seu coração.

Resolve fazer algo que contraria seus princípios; chega até a porta que

ficara aberta, para tentar escutar alguma palavra, já que os dois homens

estão conversando perto dali.

Sente uma pontada como um aguilhão dentro de si, no mais profundo lugar do

seu coração quando ouve uma palavra proferida por eles lá fora: "grávida".

Foi o que conseguiu ouvir no diálogo que se desenrolava lá fora.

Dana coloca um pouco a cabeça para fora, a fim de escutar mais alguma coisa;

vê que Mulder gesticula muito e dá passadas afobadas perto do outro Agente.

 

- Não era pra deixar ela vir até aqui! Logo na minha sala! - dizia

Mulder.

 

- Mas eu procurei barrar a passagem dela até aqui, acredite Mulder! -

retrucava Steen.

 

Dana retorna ao interior da sala e senta-se.

Pensamentos obscuros atordoam-na aflitivamente.

"A mulher está grávida? Grávida?! Será dele? E eu nunca soube nada dessa

relação... como pode?!"

Toma rapidamente uma pasta de sobre a mesa. Deixa a sala.

Na saída passa por Mulder e Steen que ainda conversam.

 

- Vai sair, Scully? - ele olha o relógio de pulso.

 

- O que acha, Mulder? - responde sem parar de caminhar, seguindo

através do longo corredor.

 

 

X x x x x x x x x X

 

 

Dana entra no apartamento. Tudo escuro. A noite já chegara. Larga as chaves

na mesa. Retira o blaser. Vai até a janela.

Após horas e horas de investigação, olhos grudados em computadores, autopsia,

arquivos, sente-se esgotada.

Fôra melhor, porem, passar todas aquelas horas do dia longe de Mulder, longe

dos pensamentos negativos, longe daquela traição... traição!!

"Meu Deus, Mulder tem alguma coisa com aquela mulher! Ele é amante dela e ela

está grávida! E eu, a tonta, a idiota... sempre pensando nele, sempre à espera

dele, achando que talvez sinta falta de mim quando estou ausente... no entanto

ele tem... outra! E ela espera um filho dele! Um filho!

Um desanimado pensamento toma conta de sua mente:

"E ela o agarrou porque pode ter um filho! Ela pode dar-lhe um fruto... um

filho que eu nunca lhe poderia dar...!"

O pranto que, de início vem em mansas lágrimas ardentes aos olhos e o aperto

na garganta, aos poucos vão tomando conta do seu frágil ser e ela sucumbe ao

poder daquele choro triste, convulsivo, que desprende-se do âmago do seu

coração.

Dana corre para o quarto, deixando-se cair de costas na cama. Abre bem os

olhos fixando o teto e permitindo que o sofrimento tome conta de todo o seu

ser, desmanchando-se em sentido pranto.

 

O celular toca dentro do bolso do seu casaco pendurado na cadeira da sala.

Ela fica a ouvi-lo tocar insistentemente. Não vai atender. Para que? Por que?

Agora a forte, destemida Agente Especial está fragilizada, sofredora.

Um novo toque ela ouve do telefone que está sobre a mesa.

Senta-se, ainda na cama. Continua no firme propósito de não querer atender a

chamada.

Ainda com as lágrimas rolando pelas faces, coloca as mãos tapando os ouvidos,

desesperada.

Cessa, então, o toque contínuo e estridente.

Lentamente Dana joga-se outra vez na cama e ali deixa-se ficar.

O sono toma conta de seus sentidos e ela adormece.

 

 

X x x x x x x x x X

 

 

Dana retira os óculos do rosto e esfrega um pouco os olhos cansados.

 

Mulder, com uma das pastas nas mãos folheia-a, impaciente, denotando

nervosismo.

- Droga! Mas não pode ser!

 

Dana o observa sem comentários.

 

- Não é possível que as evidências que temos em mãos não sirvam para

processarmos o cara suspeito, Scully!

 

- Você me parece um pouco fatigado, Mulder.

 

- É... e estou mesmo!

 

- Acredito que sim; você... - olha-o de soslaio - está passando por

algum problema?

 

Ele pára o que está fazendo para fitá-la.

 

Parece a Dana que ele vai dizer-lhe algo, porem apenas balbucia:

- Não... - e dirige-se a um arquivo de aço do qual puxa uma das gavetas de

onde fica revirando várias pastas.

 

Dana levanta-se.

- Volto logo, Mulder.

Dirige-se para a saída da sala.

Atravessa os movimentados corredores do Bureau.

Ao chegar em frente a uma porta, bate em rápidas pancadinhas.

 

- Entre. - diz uma voz lá de dentro.

 

Dana entra.

- Bom dia. O Agente Steen, por favor! Preciso falar com ele.

 

- Ah, o Larry... - responde a moça - voltará somente na próxima semana.

Viajou ontem.

 

Dana respira profundamente e fecha os olhos, angustiada.

- Obrigada. - diz e sai.

 

O que estaria acontecendo?

Mulder não abria a boca para contar nada.

Ela poderia até saber de algo se Steen quisesse contar-lhe, mas viajara...

E agora? Como poderia decifrar aquela charada?

Caminhando vagarosamente retorna à sala do porão.

 

Mulder está ainda envolto no mundo de pastas do arquivo, sentado à mesa,

colocando uma caneta na boca, absorto:

- Foi ver alguma coisa, Scully?

 

- Por que pergunta, Mulder? Será que tenho que dar-lhe satisfações de tudo

que vou fazer?

 

Mulder levanta o olhar para ela, tira a caneta da boca, estupefato com a

atitude grosseira de Dana.

- O que é isso, Scully? Fiz-lhe uma pergunta tão simples...! Não foi com a

intenção...

 

- Pode parar por aí, tá? Afinal de contas você tem seus problemas na sua vida

particular e eu tenho os meus... - abranda a voz - Por favor, me deixe

trabalhar em paz!

 

Ele não entendera. Parecera-lhe haver algo diferente em Dana desde o dia

anterior.

Aproxima-se dela para segurá-la no ombro.

 

O gesto rápido de um safanão o deixa embasbacado com a atitude tomada por

parte da parceira.

- Scully...! - queda-se admirado a fitá-la, procurando-lhe o olhar que ela

não devolve em sua direção.

 

Dana, em passos rápidos, guarda a pasta que tem em mãos no arquivo e olha o

relógio:

- Preciso sair, Mulder.

 

- Scully, mas hoje eu levo você pra casa! Você falou que está sem carro!

 

- Pra que você acha que existem taxis, Mulder?

 

Ele novamente aproxima-se. Uma ruga aparece-lhe, vincando a testa. O rosto tem

uma expressão de amargura:

- Scully, o que há com você? Há muito tempo não a vejo assim! O que está se

passando?

Tem a impressão de que ela está querendo dizer-lhe algo, mas não tem coragem

de abrir a boca para falar.

- Pode dizer pra mim, Scully... você sabe que sempre recorremos um ao outro

quando necessitamos desabafar, contar nossas tristezas ou angústias.

 

- Pára, Mulder! - os olhos faiscam de raiva em direção dele - Eu não sei

bem onde você quer chegar com tanta hipocrisia!

 

Ele fica estático neste instante, sem poder assimilar bem as palavras que Dana

joga-lhe no rosto.

- Hipócrita... eu?

 

- Não me faça dizer mais, Mulder... e tenha uma boa noite! Você e...

Pára, cerra os lábios, respira profundamente.

Sai rápida e tempestuosamente, batendo a porta com um estrondo.

 

Ao presenciar esta cena a surpresa de Mulder fôra demais! Seus pensamentos

rapidamente voltam há algum tempo atrás:

"Há muito tempo não via Dana tão aborrecida assim, a não ser naquela ocasião

em que fomos investigar o caso das duas jovens amigas e que motivado pela

junção de astros com a lua, isso havia afetado e causado danos nas mentes das

jovens assim como de Scully".

Joga-se aborrecido na cadeira, segura a cabeça com uma das mãos, enquanto que

com a outra amassa nervosamente uma folha de papel, como se quisesse amassar

ali dentro a sua tristeza, seus problemas, seu abandono, sua carência... num

ímpeto atira raivosamente a bola de papel na lixeira, a qual cai fora do alvo.

Mulder levanta-se, desfecha diversos pontapés na lixeira, deixando, naquela

atitude impensada, expandir sua raiva, sua decepção com aquela a quem sempre

dedicara muito carinho, muito respeito, muito...

- Amor?! - brada dentro do recinto fechado - Ela não me ama e nem nunca me

amou! Quantas vezes já insinuei-lhe isso, mas ela simplesmente faz que não me

entende! E o bobo aqui também não quis entender!

Os certeiros chutes na lixeira o fazem aliviar a raiva que sente em seu

íntimo. Toma rapidamente o paletó e dirige-se a passos largos para a saída,

fazendo com que, no modo brusco como tirara o paletó, a cadeira seja jogada ao

chão, com grande baque sobre o assoalho.

 

 

X x x x x x x x x X

 

 

 

Scully resolvera não voltar mais ao Bureau nesse dia.

"Chega, não dá mais por hoje! Cansei!" - pensa.

Saira do banheiro, após haver tomado um banho relaxante.

O corpo, a pele estão limpos, saudáveis e refrescados.

A mente não.

A mente está enegrecida, doente, quente... fervente!

Vai até a cozinha. Abre a geladeira com um copo na mão. Retira uma caixa com

leite e enche o copo. Bate a porta, fechando a geladeira com raiva.

Começa a beber o leite. Aos primeiros goles já pode perceber que o líquido não

vai descer pela sua garganta abaixo. Tenta mais uma vez. Não consegue. Em sua

garganta, neste momento, há um grande bloqueio. O líquido que tem que entrar

é impelido para fora pela pressão de um choro que quer escapar aos borbotões.

E Dana deixa o pranto sair na forma de lágrimas quentes e salgadas que rolam

pela sua face tristonha, enquanto a mão dentro da pia, esquecida, permite ser

derramado o leite contido no copo, lentamente.

Seu olhar dirige-se a um paliteiro que está a um canto da pia.

Também observa um pequeno bloco de anotações preso à geladeira.

Num relance veio-lhe o pensamento sobre um fato um tanto antigo:

"Certa vez li em algum artigo escrito por alguém que... como era mesmo?" Tenta

lembrar-se e faz um pequeno esforço.

Com dedos trêmulos toma uma das folhas do bloco.

"A melhor forma para esquecer um amor é comprar um canivete bem amolado e

afinar dezoito pedacinhos de pau, bem pontudos, bem lisos e torneados; depois

deixá-los a um canto..." - ela ri, tristemente; um sorriso de amargura e

desengano - "... apanhar uma folha de papel tamanho ofício e enchê-la toda,

de alto a baixo, com o nome de seu amado, escrevendo com letra bem bonita, de

preferência com tinta azul..." - ela assim o faz, caprichosamente, uma, duas,

três vezes... - "em seguida faça com essa folha um aviãozinho e o jogue pela

janela. Observe o vôo e a aterrissagem. Depois desça, vá lá fora, apanhe o

avião de papel, desdobre a folha novamente e volte a dobrá-la, desta vez no

meio..." - Dana dobra a folha, pacientemente, comandada por seus pensamentos

- "dobre outras vezes até conseguir o menor pedaço possível. Então, com o

canivete, vá cortando todas as partes dobradas até transformar toda a folha

em minúsculos papeizinhos tão pequenos, que o nome do seu amado não deve caber

inteiro em nenhum deles..." - Dana começa a rasgar em pequeníssimos pedaços o

papel - "aí apanhe todos aqueles pausinhos que tinha deixado a um canto e,

com os pedacinhos de papel, faça uma fogueira, com o máximo cuidado, até que

restem somente cinzas..." - ela vai até a janela, coloca na palma da mão os

pedacinhos de papel e sopra-os, deixando que o vento os espalhe pelo ar -

"... se adianta alguma coisa? É claro que não; esquecer não se esquece; só o

tempo pode dar jeito. Mas fazer fogueirinhas é um bom modo de passar o

tempo."

Dana deixa um leve sorriso aflorar-lhe nos lábios.

Mas o nome de Fox Mulder volta-lhe à mente absorta.

Por que não o pode esquecer?

O que mais poderia fazer? E como poder esquecê-lo, vendo-o todos os dias,

todas as horas, ouvindo sua voz, deixando-o tocá-la...

"E aquela mulher? Como ele fica quando está com ela? Como é que agem quando

estão juntos? E o que fazem? Será que eles... mas sim, claro! Sou idiota,

tola, incrivelmente imbecil... e então ela não está grávida? Que prova mais

concreta, plausível, racional, teria de que eles fazem amor? E será isso

feito por verdadeiro e puro amor? Ou é somente uma paixão doentia, ou um

sentimento de posse?"

 

O telefone toca em cima do móvel.

Dana tem o corpo estremecido pelo susto.

- Não vou atender... não vou atender... - tenta convencer-se a si mesma.

O chamado do telefone continua.

Como que de um modo automático, Dana aproxima-se do aparelho. Atende com voz

sumida:

- Scully.

 

- É o Mulder, Scully... ahn... desculpe eu ligar... eu não quero incomodar...

mas precisava saber de você.

 

- Saber o que?

 

- O que houve, Scully?

 

- Não entendi.

 

- Scully, o que está acontecendo com você? Por que não me diz?

 

Ela se impacienta. Não dá mais para esperar. Precisa saber. Esfrega o rosto

com a mão que está desocupada.

-Aah... eu não agüento mais...!

 

- Mas o que houve, Scully? - espera resposta.

Scully...?

 

Dana reflete:

"Por que dar-lhe satisfações por meus achaques? Ele se importaria comigo de

alguma forma? Afinal de contas somos apenas parceiros... nada mais...

- Huuuumpf! - descarrega sua ira sobre o aparelho telefônico e bruscamente o

coloca no gancho.

"Se Mulder necessitar investigar alguma coisa hoje, irá fazê-lo sem mim...

hoje ou quem sabe sempre, daqui em diante".

 

 

 

X x x x x x x x x X

 

O dia arrastara-se; parecia a Dana que a terra parara de girar.

A noite havia chegado, enfim, mas no entanto isso torna-a extremamente

angustiada.

Ela está deitada na cama; a obscuridade do quarto a faz relaxar um pouco.

O toque da campainha desperta-a do seu torpor. Levanta-se para ver.

Um certeza tem de que o seu parceiro não seria, pois ele sempre dá as

batidinhas combinadas na porta.

Abre, então, a porta na incerteza de quem a procura a essa hora.

Mal destranca-a e já Mulder a segura por um braço, empurrando-a levemente para

dentro.

- Desculpe-me Scully, de outra forma você não me deixaria entrar.

 

Ela está estática, acompanhando todos os gestos dele, mas sem encará-lo de

frente. Resolve indagar com a cabeça erguida, braços cruzados:

- Precisa de mim, Mulder?

 

- Sim, Scully.

Faz um gesto com a mão, indicando que quer sentar-se:

- Posso?

 

- Desde quando você me pede permissão para fazer alguma coisa quando está na

minha casa?

 

- Que é isso, Scully...? Eu nunca abusei de nada.

 

- Eu sei... desculpe Mulder. - fecha os olhos, com ar cansado e senta-se no

sofá.

 

Mulder a percebe abatida e distante. Aproxima-se, sentando-se bem junto dela.

- Scully, eu não vou sair enquanto você não me falar o que houve com você...

 

Scully abre os grandes olhos azuis para fitá-lo:

- Mulder, eu não tenho nada, lhe asseguro. Por que me atormenta? - fala num

tom tão tristonho que o deixa abalado.

 

- Atormentá-la, eu? Mas só quero ajudar!

 

Dana levanta-se, toma o telefone sobre a mesa; digita um número:

- Dê-me licença um instante, Mulder.

 

Ele a observa ao telefone.

 

- Mãe, - está falando - tudo bem? Olhe, diga a Charles que estarei lá as

8. - pausa - É... sei... pode deixar; vou sim! Está bem... tchau mãe!

Coloca o telefone no gancho.

 

- Vai sair, Scully?

- Sim.

 

- Agora... à noite?

 

- Claro que agora. Já! Qual o problema?

 

- Nenhum; não tenho nada com sua vida...!

 

- Claro!

 

- Claro! - ele confirma dando de ombros.

 

Dana dirige-se ao quarto; retorna a seguir vestindo um casaco sobre a roupa.

- Você me dá licença, Mulder? Tenho que ir, agora.

 

Mulder suspira, seus maxilares latejam sob a pele e, num gesto rápido, volta-

se para a porta de saída, falando enquanto deixa o apartamento.

- Até amanhã, Scully.

 

Ela não responde. Permanece por alguns momentos ali, parada, muda, nem sabe

aguardando o quê. Sente um imenso desânimo tomar conta do seu corpo.

 

 

 

X x x x x x x x x X

 

 

Nesta manhã sente o sol deliciosamente quente sobre a pele.

Dana sente a ardência da quentura dos raios do sol no seu braço, enquanto está

no volante do carro com o braço colocado fora da janela.

Está dirigindo até o seu trabalho, porem o trânsito engarrafado a impacienta.

Súbito seu olhar depara com algo à distância:

- Não pode ser o que estou vendo! Não pode ser! - exclama consigo.

Apura mais o olhar em meio aquele mundo de veículos ao seu redor.

Lá adiante, no seu próprio carro, Mulder está dirigindo acompanhado da mulher

que Dana vira há dias atrás.

Pestaneja várias vezes, tentando ver se há algum engano, se pode ser um homem

parecido com o seu parceiro.

"Mas ele é inconfundível! E é aquela mulher mesmo! Aquela que... está grávida

dele!" - esses pensamentos a deixam contrariada.

Mas Dana tem que ser forte, tem que deixar pra lá o problema que surgiu diante

de sua vida como um monstro devorador do seu coração. Sente que tem que

levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima de todo aquele drama.

Afinal, ninguém morre por amor, ninguém.

"Ninguém... - balbucia em murmúrios - ... mas o que sempre senti por Mulder

foi muito mais que amor...!

A melodia no rádio do carro inspira sua tristeza e ela sente agora que sua

visão está cada vez mais enevoada pelas lágrimas que inundam-lhe o olhar.

 

 

X x x x x x x x x X

 

 

 

Já uma semana se passara.

Uma semana de tormento e dor.

 

Mulder, ao perceber a frieza de sua companheira de trabalho, havia tomado uma

atitude circunspecta. Não dissera mais as piadas sutis que costuma fazer,

trabalhara todos esses dias ao lado de Scully com a maior seriedade possível.

Deixaria que ela procurasse falar-lhe, arrepender-se de como o havia tratado.

Afinal ele tem certas coisas na vida que não podem ser evitadas. Como o

problema que está sofrendo nestes dias com a falta que sente da intimidade com

Scully, sua amiga e companheira de tantos anos.

- Scully... - automaticamente pronunciara o nome dela com um profundo

sentimento de consideração, respeito... amor. - Scully, eu sinto falta de

você... - queixa-se.

"Será que as pessoas que amam tornam-se loucos, abobalhados?" - reflete - Por

vezes até falamos sozinhos!"

Na sala do porão ele está rodeado de coisas com as quais lida diariamente:

seus arquivos, computadores, pastas, objetos etc, mas sente a falta daquela

que faz parte da sua vida de trabalho diário.

O telefone toca neste instante.

Mulder o atende e sai.

No corredor depara-se com Dana, que está caminhando a passos lentos.

- Bom dia, Scully.

 

Mais à distância de Scully o Agente Steen também dirige seus passos em

direção à sala de Mulder, quando o encontra vindo em direção oposta.

- Agente Mulder! - cumprimenta-o

 

O coração de Scully dá uma batidinha a mais percebendo que Steen havia chegado

da tal viagem. Hoje ele não escaparia de suas indagações.

Dana diminui o ritmo dos passos para retardar a chegada à sua sala e assim

poder ouvir a conversa dos dois Agentes.

 

- Quando chegou? - inquire-o Mulder.

 

- Ontem à noite.

 

- E como foi resolvido o caso?

"Resolvido o caso" - pensa Scully - "Que solução pode ser dada num caso

desses? Um aborto... talvez?"

 

- Está tudo caminhando... o pai resolveu tomar a frente, Mulder!

 

"O pai da moça já se envolveu; agora acho que é mais um problema para Mulder!

Dana volta-se para olhar os dois.

Mulder está passando a mão nos cabelos revoltos, contrafeito. Ela percebe bem

isso.

Dana anda mais rápido e entra na sala, fechando a porta atrás de si.

"Tenho que tomar uma drástica decisão e é agora!"

Toma o telefone. Digita o número do ramal.

- É a Agente Scully. Senhor Skinner, posso ir até sua sala, agora?

 

 

X x x x x x x x x X

O tédio a faz sentir-se mais e mais enojada de tudo ao seu redor. Os gestos

lentos demonstram sua incapacidade de retomar com agilidade as tarefas que

precisa realizar.

Dana passa a olhar à volta de todo o apartamento em cada recanto, como se

quisesse guardar na memória cada espaço daquele lugar. Vive ali por algum

tempo. Pensara até ser feliz em alguns momentos, no entanto ali estava sendo

também o seu lugar de sacrifício; iria perder o único sentimento que animara

sua vida tão vazia: a esperança de um amor.

Agora vai embora dali. Largará tudo aquilo. Tudo que faz-lhe lembrar Mulder.

Terá que reaprender a viver uma nova vida, longe daquele lugar. Terá que

reaprender a possuir um coração frio voltado para tudo e para nada, afinal de

contas. Sem emoções, nem prazeres, nem... nem Mulder, o homem que conseguira,

realmente, abalar seus sentimentos por tanto tempo.

 

O toque do telefone atrapalha-lhe os pensamentos. Atende.

- Scully.

 

- Agente Scully? Boa tarde; é o Agente Steen falando! Só queria saber s e o

Agente Mulder está aí.

 

- Aqui? Por que estaria?

 

- Ah, desculpe, Agente Scully... - fica meio confuso - é porque ele me diz

todos os dias que tem que ir aí... só que não está encontrando tempo.

 

- Tempo? Mas se nos vemos a toda as horas do dia no trabalho...!?

 

- Sim, sim, desculpe.

 

- Agente Steen?

 

- Pois não, diga.

 

- Larry é que... ahn... fale-me sobre esse caso do Mulder...

 

- Caso?!

 

- Sim... essa moça... Anne Leinster...

 

- Ah, a senhora Leinster? É... realmente é um caso de certa forma grave,

claro que é um particular e opção deles, mas que não vai ter outro jeito

senão casarem.

 

- Casar? Ele vai casar?!

 

- Exato. As criancinhas vêm ao mundo, mas não devem pagar pelos erros dos

pais. Agora os pais têm que se unir, tentar viver uma vida juntos, firmes

e criarem seu filho até quando, por certo, a criança já possuir um certo

entendimento e saber que os pais embora não se amando o criaram com todo

zelo e carinho. Eu penso assim, sabe?

 

- E ele não a ama?

 

- Claro que não como deveria. Não está nem aí para o problema. Achamos,

Agente Scully... - diminui o tom de voz - que ele vive embeiçado por

outra; posso lhe pedir uma coisa? Não comente nada... ok?

 

- Naturalmente. Conte comigo na discrição deste assunto.

 

- Bem, Agente Scully, eu estou sendo informado neste instante que o Agente

Mulder já saiu de casa e está vindo para o FBI. Obrigado. Até logo.

 

- Até logo - fala Scully, com tom fraco na voz.

"Achamos, Agente Scully, que ele vive embeiçado por outra."

A frase permanecera remoendo os pensamentos de Dana.

"Nesse caso a "outra" sou eu. Ah, que ódio!!!"

 

X x x x x x x x x X

 

 

Dana olha o relógio na mesinha ao lado da cama.

Duas horas já se haviam passado.

Está com tudo arrumado. Dali não levaria muita coisa a não ser o necessário

para o uso normal.

Já reservara um hotel na cidade para onde iria.

Com o passar do tempo poderia dispor de uma casa ou apartamento para morar.

Mas tem certeza de que se dará bem em qualquer lugar.

Seus dedos tocam em um objeto que se movimentara no meio das roupas na valise.

Um presente que seu parceiro lhe dera certa vez, em algum tempo, numa noite de

Natal.

Um tubo de celulóide com os restos do que fôra uma linda rosa agora

ressequida, guardada em seu interior. Fôra linda, num lindo tom vermelho, o

símbolo de um amor... que nunca, realmente, se realizara.

Ao tocá-lo Dana sente a emoção invadir-lhe a alma e toma-o carinhosamente

encostando os lábios sobre o antigo presente. As lágrimas afluem aos seus

olhos. Guarda-o com carinho no meio de suas roupas na valise.

 

Entre Dana e Mulder as coisas haviam se modificado quase que por completo.

Trabalham juntos muitas horas por dia, entendem-se mutuamente, mas ele já nem

mais procura o seu olhar ou fala-lhe palavras de carinho como muitas vezes já

o fez. Agora ambos agem friamente como realmente dois simples colegas de

trabalho, parceiros, nada mais absolutamente que isso.

Leves batidas na porta tiram-na de sua concentração.

- Mulder? - indaga para si, embora convicta.

Permanece parada no lugar onde se encontra.

 

- Scully? - ouve chamá-la do lado de fora.

 

Ela aproxima-se da porta para abri-la.

Abre-a e o vê diante de si.

 

Ele tem os lábios apertados, a ruga de preocupação na testa, nos olhos um

queixume.

- Scully... desculpe; deixe-me entrar.

 

- Claro. - deixa-o passar.

 

Mulder rodeia o olhar por sobre as duas valises sobre a mesa, os móveis um

tanto fora do lugar.

- Scully, estou sabendo.

- Sabendo do que?

 

- O Skinner acabou de me chamar até a sala dele para informar a sua decisão.

 

Dana o observa falando; engole em seco; adora o jeito dele falar, o seu rosto

expressivo, o nariz agudo, os olhos esquadrinhadores, a boca sensual, suas

mãos apalpadoras, às vezes envolventes, seu andar no jeito característico de

jogar os pés...

- E daí? - é só o que consegue dizer usando o tom de voz mais frio que pôde

simular.

 

- Scully eu não acredito que você tenha tomado uma decisão drástica como

essa! Eu não aceito, Scully. Sem explicações, decididamente não!

 

- Eu tenho problemas a resolver, Mulder.

 

- Eu sei, Scully; nós todos temos. Mas por que não os podemos resolver com

sabedoria, com tino?

 

Ela anda e volta-se para a janela.

- E como você vai resolver o seu?

 

- O meu? Aliás, os meus, você quer dizer. Cada um de nós tem mil problemas,

não um somente!

 

- Sei... ahn... mas esse principal que você tem agora? Como vai poder

resolvê-lo?

 

- O meu principal problema você sabe qual é no momento.

 

Ela assente, movimentando a cabeça.

- Será que vai sentir-se feliz para o resto da vida, Mulder?

 

- Eu? Feliz? Você está brincando, Scully ... lindinha... como eu posso ser

feliz?

 

Ele já está lhe falando naquele tom que a deixa arrasada, destroçada, em

êxtase... mas tem que reagir, ser forte!

- Você tem que, pelo menos fingir, Mulder, mesmo que não seja completamente

feliz.

 

- Por que me fala uma coisa tola dessas, Scully?

 

- Bem, ahn... desculpe Mulder; você é que iniciou, eu, absolutamente não

quero me envolver na sua vida sentimental...

 

- Já está envolvida, Scully.

- Ah, então me desculpe novamente, Mulder. Eu já vou embora mesmo e não

precisa mais ficar preocupado com a minha intromissão.

 

- Em que? - ele parece admirado.

 

- Nada, Mulder, nada. Espero que vocês sejam felizes.

 

- Vocês?

 

- Sim, por que o espanto?

 

- Não estou acostumado a receber votos no plural. - aproxima-se e segura-lhe

um ombro - Scully, por favor, desista dessa atitude, agora! Por favor!

Tenho notado a sua mudança de atitudes, seu mal humor, sua rispidez para

comigo. E garanto a você que tenho feito tudo para aceitar isso de bom

grado. Mas agora essa sua decisão de ir embora... novamente você toma essa

decisão... está a fim de me matar, Scully? Não dá pra viver sem você do meu

lado me dando força, me alimentando com suas convicções para que mais eu

possa tomar decisões, lutas, soluções. Você me completa, Scully, já lhe

disse isso tantas e tantas vezes! Será que terei que repetir mais e mais?

Você não entende?

 

- Entendo, entendo, entendo sim, Mulder! Mas como você quer que sejam as

coisas agora? Você vai ter a sua vida e eu tenho que tomar uma decisão

forte para mim e ter também a minha própria vida! Meu caminho! É isso!

 

- Só que sem você eu não vivo, Scully... - fita-a nos olhos intensamente.

 

- Meu Deus, Mulder! Não sei como consegue dizer isso sem nenhum remorso! Se

eu fosse ela, ficaria louca em pensar que...

 

- Ela? Quem?

 

- A mulher que você...

 

- A mulher que eu o que?

 

O telefone demonstra sua presença neste momento, tilintando sem parar.

Scully atende:

- Agente Scully.

 

- Oi, Agente... Dana, sou eu novamente, Larry! Boa tarde. Como o Agente

Mulder não está aqui eu pensei que...

Dana não responde. Desanimada, passa o telefone para Mulder que a olha

intrigado, mas atende.

- Mulder.

Fica ouvindo o que Steen lhe diz do outro lado da linha.

Um leve sorriso pode se vislumbrar em seus lábios.

- Que bom, Steen, ter sido resolvido esse caso. Embora Anne não quisesse pôr

ao conhecimento da gente, finalmente, teve que abrir mão, não é?

 

"Anne!" - remoem-se-lhe na mente de Dana os pensamentos - "Falou o nome

daquela mulher!"

 

- Sei... então vai finalmente ceder para assumir o filho? Ótimo. Procure logo

falar para o Mitchell, ok? Ele já deve estar a par de tudo que tem a fazer

a partir de agora. - após alguns segundos - Obrigado, Steen. Até logo.

Mulder coloca o telefone no gancho.

Olha para Dana que, sentada no sofá, tem as sobrancelhas franzidas, tentando

concatenar as idéias.

 

Ela não entendera nada do que ouvira. Afinal sobre o que estava ele realmente

falando com Steen? - pensara.

 

Mulder aproxima-se para sentar-se junto dela.

- Agora nós, Scully.

 

- Nós o que?

 

- Precisamos terminar o que conversávamos.

 

- Mulder... ahn... o que está acontecendo com... a Anne? - sente dificuldade

para fazer a pergunta.

- Anne? Ah! - Mulder faz uma expressão de exaustão - Isso me deu uma dor de

cabeça, Scully!

 

Ela tem o desejo de perguntar sobre o bebê; não tem coragem.

 

Mulder joga a cabeça sobre o encosto do sofá com ar desgostoso:

- E a garota está esperando um bebê... - explica.

 

Dana fecha os olhos e respira fundo. Não quer ouvir falar mais disso.

- Você a acha tão garota assim, Mulder? Não me parece...

 

- A garota? - ele a fita, admirado - Tem quinze anos apenas, Scully!

 

- Quem?! - ela não entendera.

 

- A garota!

 

- Mas que garota?

 

- A filha da Anne, Scully!

 

Um imaginário balde de água gelada é derramado sobre a cabeça de Dana neste

momento. Não só água mas o balde inclusive, causando-lhe um impacto na

consciência.

Sente-se perdida num mar de frustrações e de arrependimento.

- A Anne tem uma filha?

 

- Sim! Chama-se Mildred e é adolescente, mas envolveu-se com um funcionário

aqui do FBI, que, por sinal, é amigo do Steen. A Anne não queria, de forma

alguma, que chegasse esse caso ao conhecimento dos chefes do rapaz. Afinal,

poderia até causar um certo descontentamento e poderia atrapalhar no

desempenho do seu trabalho. Mas, finalmente para alívio de todos, o

Mitchell resolveu assumir o compromisso e vai casar com a filha da Anne.

São muito jovens, na verdade, mas se o amor resistir eles até poderão ser

felizes, ainda mais por causa do bebê que vem aí.

A Anne é uma mulher autoritária e mal humorada, Scully; procura briga

com tudo e todos; até comigo que não tenho muito a ver com o caso,

apenas tratei de convencer o Mitchell.

Mas foi através da intermediação do Steen que consegui fazer com que o

pai assumisse o filho que vai ter com a Mildred.

Dana acompanhava boquiaberta, a narrativa.

Levanta-se do sofá, a cabeça erguida para a direção do teto, as mãos à nuca:

- Eu não acredito!! - há um breve sorriso nos seus lábios.

 

- No que?

 

- Que passei tantos dias pensando... numa coisa completamente diferente...

 

- Que coisa foi essa?

 

- Ai, Mulder, não sei como pude ser tão... - faz uma pausa olhando para ele

- Por que não me contou?

 

- Você não me perguntou...!

 

"Realmente a ingênua resposta dele me derruba com sua simplicidade e faz-me

sentir que a minha freqüente racionalidade por vezes faz-me tombar em quedas

monstruosas na minhas sucessivas incredulidades." - é o pensamento

de Dana neste momento.

 

Agora é Mulder que ergue-se num ímpeto:

- Scully... você não pensou que eu e a Anne... - ela aponta para ela com ar

de gozação.

 

Dana assente, balançando a cabeça, positivamente:

- Hum, hum.

 

- Agora digo eu! - ele anda pela sala - Eu não acredito! - pára diante

dela - Foi por isso que mudou totalmente comigo, Scully?

 

Ela não consegue fixar o rosto aflito e os olhos inquisidores dele. Apenas

confirma.

- Hum, hum.

 

- Ah, não, Scully, esse seu pedido de transferência para outra cidade, foi

causa disso?

 

E Dana continua meneando a cabeça num gesto positivo.

 

De súbito Mulder prende entre seus braços o frágil corpo de Dana, falando-lhe

junto a seus cabelos:

- Você sabe que não pode fazer isso comigo, Scully. Você sabe que minha vida

sem você é nada... eu sou nada... eu vivo somente porque sei que você está

do meu lado; eu a amo Scully, você sabe disso. E embora o nosso

relacionamento não seja completo, mas aqui dentro de mim cultivo o maior

desejo de um dia você concordar com as palavras que afirmo de que a amo.

Espero chegar o dia em que possa ouvir de você que só podemos viver nossa

vida juntos... e eu estou aguardando esse momento, Scully. E eu espero, eu

tenho paciência de aguardar, sou perseverante o bastante nos meus sonhos e

projetos, porque te amo, Scully. Não dá pra viver sem você, entende? Tudo

torna-se nulo sem a sua presença. Nesses sete anos aprendi que, sem você eu

simplesmente sucumbiria até às coisas menos problemáticas da minha vida. Me

escuta, Scully, por favor! Não me deixe, não vá...!

 

Os dois juntos, abraçados ali naquela demonstração de um afeto imensurável,

uma grandeza de amor infinita, um entendimento intenso, sentem-se agora fora

do mundo que os cerca.

 

Mulder segura-lhe com u'a mão o rosto e deposita nos lábios de Dana o seu

beijo delicado de amizade, de carinho, de afeto e de amor, o supremo

sentimento que está tão esquecido neste mundo.

- Não vá, Scully! - pede com os olhos marejados de lágrimas.

 

A resposta de Dana é acariciar-lhe o rosto, tomá-lo entre suas mãos e também

demonstrar o seu carinho, o seu amor:

-Não irei, Mulder. Estou aqui, junto de você. Me perdoa? - murmura.

 

- Scully... vamos pensar mais em nós?

 

- Em nós?

 

- Precisamos, Scully. Vamos continuar nossas vidas juntos?

 

- Sim. Continuemos, Mulder.

 

- Vamos viver como sempre vivemos, sem mágoas ou tristezas?

 

- Sim...

 

Agora ele aperta-a contra o peito arfante e levanta-lhe o rosto mergulhando o

verde dos olhos no mar azul dos olhos dela.

Segura-lhe o queixo com o polegar, forçando-o para junto de sua boca. E com a

voz cada vez mais sussurrante:

- Scully... posso pedir?

 

- O que? - mantém os olhos fixos nos dele.

 

- Um beijo... posso?

 

- De verdade?

 

- Isso mesmo...

 

- Hum, hum, - consente - nas não como aquele...

 

Mulder está como que experimentando o sabor daqueles lábios sempre tão

desejados, tocando-lhes repetidas vezes, enquanto murmura:

- Aquele qual?

 

- O do Ano Novo. - explica num murmúrio.

 

Com a boca quase unida aos lábios dela, ele fala com doçura:

- Tem que ser completo... e total - unem os lábios.

 

O seu beijo agora é como ambos desejam:

Completo, total, verdadeiro, avassalador, vibrante.

O beijo do verdadeiro e do puro amor.

 

Dana entrega a boca à avidez do desejo de Mulder em depositar nela toda a

ânsia do tão esperado ato de amor.

 

 

FIM