DIÁLOGO

 

 

"A nobre conversação é filha do discurso,

mãe do saber, desafogo da alma, comércio

dos corações, vínculo da amizade."

Gracián

Capítulo 1

Sentado displicentemente à sua mesa e inclinando a cadeira para trás, Fox Mulder acompanha com o olhar e em silêncio a figura pequena e frágil mas altiva de sua parceira Dana Scully, caminhando de um lado para outro, guardando as pastas nas gavetas do arquivo de aço.

Súbito, um pensamento vem-lhe à mente: fazer uma pergunta à Dana, por que não? Uma pergunta importante em que pudesse avaliar os sentimentos de sua colega, pô-la à prova e deixá-lo como sempre sem resposta, como é de seu hábito fazer.

Os grandes olhos azuis de Dana erguem-se em direção ao seu parceiro.

Ele faz uma pausa para fixar o olhar num ponto distante e completar:

Ele volta a indagar, com a voz quase sussurrante:

 

Ela o interrompe:

A pergunta vem abruptamente:

Ela esgazeia o olhar em sua direção:

Ele toca-lhe suavemente num braço.

Ela ri e fita-o zombeteiramente. Braços cruzados.

Ela dá alguns passos e afasta-se, porem não deixa de fitá-lo.

Ele ri, levando a cabeça para trás:

Ele faz um gesto com os braços abertos e dá uma volta no recinto:

Ele desaba numa cadeira:

Mulder cruza os braços, franze os lábios olhando para ela:

Ele levanta-se novamente. Leva um dedo ao queixo, pensativo.

Num repente volta e senta-se na ponta da mesa, junto onde Dana está sentada.

- Scully, feche os olhos assim... - ele cerra os olhos - o que você exatamente gostaria de estar

fazendo neste momento?

Ela fecha os olhos, como ele pede.

Ele pergunta, com um sorriso num dos lados da boca:

Pausa. Ambos silenciam.

Mulder mordica algumas sementes de girassol. Volta a falar, sem fitá-la, porem:

Scully levanta da cadeira. Fica olhando para o poster na parede.

Ele sai da ponta da mesa. Está agitado. Toca-lhe num braço:

- Venha, Scully.

Sai da sala.

Ela o acompanha.

Sobem os degraus e tomam o elevador.

Silêncio.

Parece a Dana que ele entreabre os lábios para falar alguma coisa, porem tal não acontece.

Ele tem o olhar fixo no teto do elevador. Mantém-se calado.

Scully faz o seu gesto característico de franzir os lábios, denotando o seu ar céptico.

Chegam à saida do prédio.

Ela sorri, enternecida.

Chegam até o carro.

Ele faz sinal para que ela entre.

Ele está dirigindo velozmente.

Da janela aberta do veículo entra o vento forte que levanta os cabelos dela e os joga contra seu rosto.

Dana sorri. Sente-se bem quando o parceiro diz-lhe coisas agradáveis, porem isso sempre fá-la sentir-se amedrontada. E nem sabe o porquê desse medo.

Olha para o perfil de Mulder delineado contra a claridade vinda da janela do carro.

Um perfil com traços diferentes dos homens comuns: nariz longo, porem bem desenhado sobre a boca sensual, os dentes um pouco salientes, a voz doce e encantadora, tudo numa proporção que fascina a quem o observa detalhadamente.

Ela sente que um profundo suspiro desprende-se do fundo de seu peito.

O carro segue veloz. Desliza pela estrada, engolindo o asfalto.

"O desejo vence o medo, atropela

inconvenientes e aplaina dificuldades."

Rojas