NO AUGE DO SOFRER

 

"As grandes almas sofrem em silêncio."

Schiller

Capítulo 110

Com voz entrecortada pelo pranto, Mulder fala, com os lábios roçando os cabelos de Dana:

Ela meneia a cabeça, negativamente.

Ele aperta-a contra si com mais força.

Agora Mulder toma-lhe o rosto entre as mãos, fitando-a intensamente.

Ela aperta-se mais contra o corpo dele, que a sente tremer pela emoção.

E Dana soluça, num pranto silencioso.

Mulder passa os dedos sob os grandes e entristecidos olhos dela, que agora derramam abundantes lágrimas.

Ambos dirigem o olhar para sua criança, dormindo placidamente.

Contemplam-no, embevecidos, embora sofrendo a dor da iminente separação.

Mulder abraça-a, com mais fervor. Quer senti-la por mais tempo.

Segurando-lhe o queixo, apossa-se dos lábios entreabertos dela, que o aguarda, serena, mas excitadamente amorosa.

Após o beijo prolongado, separam-se.

Mulder dá um último beijo na testa de Dana. Afasta-se com passos rápidos.

Ele escancara as portas do armário; olha o seu interior, sem, no entanto, nada enxergar. Nos olhos ainda as lágrimas afloram, fazendo-o ficar com a visão embaçada. Uma imensa tristeza o abate.

Dana, parada no mesmo lugar onde Mulder a havia deixado, acompanha, com ar angustiado, os gestos dele.

Ele vai jogando sobre a cama algumas peças de roupa e alguns pertences. Pára. Olha para Dana. A tristeza o deixa abalado a cada minuto mais. Senta-se na cama, desanimado. Olha os objetos ali jogados, com olhar vago.

Dana aproxima-se.

Mulder estende-lhe a mão, puxando-a ao seu encontro.

Ela senta-se junto dele. Permanece com as mãos no regaço, cabeça baixa. Os pensamentos tumultuam-lhe a mente perturbada.

Mulder a aperta contra si. Abraçam-se. Num dorido pranto. Silencioso. De dor. De saudade. O choro está por dentro, no seu interior, até o coração, que parece querer romper-se, arrebentar, esvair-se em sangue... até a morte.

Sacrifício para poderem sobreviver. Isto é vida? Qual o objetivo de uma vida assim? Mas... não deixaram vir ao mundo uma outra vida? A vida de uma criança destinada a pertencer a seres que não são deste mundo? Então terão que entregar-se à dor de uma absurda, mas imprescindível separação!

E continuam abraçados, cada um sabendo da intensidade de sua própria dor.

Dana afasta o seu corpo do de Mulder. Segura-o pelos braços. Tenta sorrir. Ser forte. Num gesto com o olhar, fá-lo entender que deve continuar a arrumar suas coisas.

Ela mesma, então, começa a arrumação, abrindo as malas sobre a cama.

Nada falam. Não há palavras. Nem de consolo. Nem resignação. E nem queixas. Mesmo assim, no auge do sofrer. Cessa, por fim, sua tarefa.

Puxa os fechos das malas; Mulder carrega-as para o chão.

Dana caminha até o berço. Fita seu filho. Muda. Pensativa. Como a perguntar àquele pequenino ser o porquê de tanto sofrimento.

Mulder caminha até ela. Abraça-a por trás, ardorosamente.

Agora ambos fitam a criança no berço, que agora está acordado, brincando com as mãozinhas, tentando alcançar o móbile ali, à altura de seus olhos.

Mulder afasta-se de Dana.

Dirige-se ao banheiro.

O bebê chora no berço.

Dana parece despertar, no seu entorpecimento. Toma seu filho nos braços.

A criança parece sentir o mesmo drama pelo qual os pais estão passando neste momento. E chora mais.

Dana acalenta-o

Ele não cessa de chorar.

Dana vai até a porta do banheiro e fecha-a Não deseja que o choro da criança torne mais difícil a situação em que Mulder se encontra. Acalenta, ainda, o bebê que, aos poucos, vai acalmando-se e parando de chorar.

Dana dirige-se para a sala, onde já estão as malas sobre o piso. Olha-as apaticamente. Aperta o pequenino corpo de seu filho contra o seu.

"Mulder vai embora, mas um pedacinho dele vai ficar aqui comigo. É o meu consolo." - pensa, tentando encorajar-se.

As lágrimas descem pelo seu rosto de pele alva. Notando que a criança já está quase adormecida, continua embalando-a, levemente.

Mulder sai do banheiro. Já está vestido.

O perfume dos produtos de banho recendem no ambiente.

Ele aproxima-se da mulher e do filho. Beija com ternura as mãozinhas do bebê, uma de cada vez, demoradamente.

Dana leva-o ao quarto para colocá-lo no berço. Ajeita-o com carinho.

Volta até onde está Mulder, parado, pensativo.

Ela coloca os dedos sobre seus lábios.

Fitam-se. Com amor. O mesmo olhar que durante nove anos usaram trocar. O mesmo derramar da campina verde na intensidade do céu azul. Agora inundados das águas das lágrimas silenciosas que os banham.

Seus lábios aproximam-se. Há uma atração imensa entre os olhos e as bocas.

E unem-se, num sugar ardente e voluptuoso.

É o beijo do adeus. Da ausência. Da saudade.

Ali entregam suas vidas, seu amor, sua paixão.

"A vida não é uma festa permanente e imóvel;

é uma evolução constante e rude. "

Ramalho Ortigão

Wanshipper@yahoo.com.br