ANSIEDADE

"Ansiedade é quando faltam muitos

minutos para o que quer que seja."

Mario Prata

 

Capítulo 128

Dana consulta o relógio de pulso. Dez horas e vinte e sete minutos da manhã. Tem ainda dez horas de espera, de uma longa e interminável espera pela chegada ansiada do homem que ama.

Vendo-se no espelho, observa que suas feições denotam extrema ansiedade.

"É preciso disfarçar, pensar em outras coisas... - pensa ela - ... mas o que posso eu fazer? Minha mente só trabalha em função de pensar nele, meu corpo exige a presença do dele, a minha vida, enfim, toda, está voltada para Mulder. Trabalho, dia a dia, buscando estar sempre envolvida com os fatos que tenho que resolver, no entanto, mesmo demonstrando aos meus colegas e superiores que minha mente está somente voltada para o trabalho, dentro de mim, tudo me leva a Mulder!"

Ela acaba de ajeitar os cabelos, passa um batom nos lábios para melhorar a aparência do rosto um tanto pálido, na tez muito clara.

Já havia despedido-se da mãe e dado um beijo nas bochechas rosadas do filho.

Toma as chaves de sobre a mesa, abre a porta e sai.

* * *

O coração de Scully sente um baque.

"Então essas malignas criaturas estão por toda parte...! E Mulder? Como será que vai poder me ver? Tenho que aguardar com fé e esperança; tenho que acreditar que tudo dará certo, não só para agora, mas para todo o sempre, porque nós nos amamos, porque temos nosso filho, porque..."

Doggett levanta-se, meio nervoso. Fica junto a Dana, olhando-a, fixamente, com a boca aberta, como é sua característica.

Dana volta as costas para ele, procurando remexer algo na mesa de trabalho.

Monica não resiste à ansiedade pela resposta e se aproxima.

Dana fixa os dois Agentes. Cruza os braços.

Dana, com ar decidido, dirige-lhes a palavra.

* * *

Dezoito horas e dezessete minutos.

Dana sente-se agitada, enquanto aguarda o semáforo abrir, para continuar na direção do carro, indo para casa.

Passa a mão na testa, fecha os olhos. Sente que está até um pouco enjoada pelo nervosismo intenso que a está atacando.

Finalmente, aberto o sinal verde, ela pode continuar a dirigir.

Trânsito lento. Extremamente lento.

Um profundo suspiro sai de seu peito, desdobrando-se em três, quatro ondas de sofrimento.

Aperta o pé no acelerador. Retira o pé. Breca o carro. Volta à primeira marcha. Recomeça. Pára.

Cansativo. Incomodativo. Péssimo.

* * *

Olha o relógio no pulso. Dezoito horas e cinquenta e nove minutos.

"E se eu não chegar a tempo, será que Mulder vai me esperar? Oh, meu Deus, eu tenho que me livrar desse trânsito horrível!"- pensa, atormentada.

Um taxi, lado a lado com seu carro, buzina, tentando agitar os motoristas dos outros veículos adiante.

"Droga! De que adianta esse cara ficar assim, com o som dessa buzina penetrando nos nossos ouvidos?"- ela reclama em seu interior.

Novamente a grande quantidade de veículos se movimenta para seguir em frente. Pára tudo, logo em seguida.

Dana tamborila as unhas sobre o volante, quase irada.

* * *

Dezenove horas e trinta e três minutos. Ela vê, horrorizada, o grande relógio luminoso da praça, marcando em seu mostrador, parecendo estar a apressá-la.

O trânsito alivia um pouco.

Ela consegue dar uma aliviada na quilometragem e chegar a quarenta por hora.

"Já não aguento mais! Ah, se seu pudesse transformar este carro num transporte voador qualquer...!"- pensa, angustiada. A ansiedade a consome.

Dando uma rápida e discreta olhada para o lado, percebe que o passageiro do taxi ao seu lado a está observando, apesar de que não há uma boa imagem para dentro do veículo, onde viaja o tal sujeito. Ela sente um pouco de receio. Afinal, sua vida é cercada de medos e problemas.

Seu primeiro pensamento neste exato momento vai para William. Tem medo. Como sempre, tem que estar alerta.

Ainda podendo aumentar mais um pouco a velocidade, Dana dispara seu veículo no máximo que lhe é permitido, nessas alturas.

Olha para o velocímetro. Noventa quilômetros. Ela continua com o pé firme, sobre o acelerador.

Nota que o táxi que a vinha ladeando também está em velocidade e consegue ficar ao lado do seu veículo.

Finalmente, aliviada, vê que já está próximo à sua rua.

Estaciona o carro, lentamente.

O táxi que andara próximo ao seu carro, já havia desaparecido.

Dana gira a chave na ignição, desligando o motor. Retira-a e coloca o dedo sobre o fechador automático dos vidros da porta. Abre-a e sai. Tranca-a do lado de fora.

Pára por instantes, olha ao seu redor. Nada vê de estranho. Suspira, aliviada.

Começa a subir os degraus da entrada do prédio.

Pessoas estão ali conversando. Além delas, um homem alto, bem gentil, faz um gesto com a mão, indicando-lhe a passagem. Nota que ele não parece ser morador do prédio.

Num ápice, sua mente trabalha, notando que o homem usa óculos muito escuros, apesar de já estarem em plena noite.

Acha aquilo muito estranho, para sua concepção de mulher atenta a tudo que a cerca.

Dana recomeça o seu caminhar, subindo os poucos degraus do prédio.

Olha o relógio de pulso, que está marcando vinte horas e quatorze minutos.

Ela aperta os lábios, contrafeita.

"Já está passando da hora de Mulder chegar. Meu Deus, que nervoso!" - pensa, aflita.

Acelera os passos.

Dana, mesmo na sua preocupação, percebe que o homem de barba crescida e cabelos totalmente grisalhos, prossegue a andar, seguindo sua mesma direção.

Ela continua pelo corredor em passos firmes, mas em dúvida se deve chegar até a porta de seu apartamento.

Em dado momento, sentindo ainda aquele estranho a segui-la, ela retorna seus passos e, girando nos calcanhares, volta-se para ele e retira, agilmente, a arma de seu casaco e destrava-a, apontando-a na direção do estranho.

O homem pára. Esboça um sorriso para Dana. Lentamente retira os óculos de aros grossos e lentes escuras.

"Há sorrisos que ferem como punhais."

E. Blasco