FUGAZ FELICIDADE

"Felicidade é a certeza de que a nossa

vida não está passando inutilmente."

Erico Verissimo

Capítulo 129

Dana continua firmemente mirando sua arma contra o desconhecido.

O gesto do homem ir retirando, lentamente, os óculos, a faz deter o olhar fixamente sobre os dele.

E vê, confusa, admirada, naqueles olhos o inconfundível verde transparente dos olhos de Mulder.

Num relance, sua mente retorna àquela ocasião em que examinava os olhos do homem queimado, que injetara uma química no sangue de seu William. E imagina está delirando, vendo em tudo o rosto do seu amado.

"É sempre assim."- ela pensa, mas continua atenta em seu gesto neste instante.

A voz era, realmente, inconfundível.

Dana atônita, continua apontando a arma na direção do homem, mas, aos poucos, deixa cair o braço ao longo do corpo.

Ele aproxima-se. Detém, com doçura, a mão de Dana, que segura a arma, trava-a e a guarda no bolso do casaco dela.

Ele a abraça, então.

Para Dana não é necessário que mais nada prove a verdadeira identidade daquele desconhecido. Ela sabe e sente que aqueles são, verdadeiramente, os braços e a quentura do corpo do seu amado.

O abraço é tão intenso, tão apertado, tão cheio de paixão, que palavras não são, absolutamente necessárias a serem trocadas pelo casal, neste momento.

Seus corpos vibram de prazer e ânsia pelo tão esperado momento do reencontro.

Durante minutos ficam ali, somente colados, olhos fechados, extasiados por encontrarem-se nos braços um do outro.

O estremecimento vem do mais recôndito do corpo de Dana. Como uma onda alucinante, os soluços nascem num crescendo do fundo de sua alma.

Mulder segura-lhe o rosto e a beija levemente nos lábios. Ela o beija no pescoço.

Ela lhe sorri entre as lágrimas e concorda.

Desprendem-se do abraço.

Ela retira as chaves do bolso e abre a porta.

Entram no apartamento, ela puxando-o pela mão. Na face molhada pelas lágrimas a demonstração da felicidade se apresenta, mesmo sendo tão fugaz, ambos sabem.

Mulder a faz parar, após fechar a porta e, num gesto rápido, puxa a estranha peruca que lhe cobre os cabelos castanhos e deixa-a cair no chão.

E ele, segurando o rosto de Dana, limpa-lhe as lágrimas com os dedos polegares, em ambas as faces.

Agora os lábios aproximam-se e um ardoroso beijo é trocado. Língua procurando loucamente roçar-se na outra. Boca sugando vorazmente a outra. Mãos apertando os corpos com atormentado desejo de assim permanecer por horas a fio, caso fosse possível.

Desprendem os lábios. Ele contempla, com doçura, os olhos azuis que o enlouquecem.

Ela deixa-se contemplar e também o envolve com acariciador olhar.

O olhar dele vai na direção da sala. Afasta-se de Dana.

Mulder coloca-se diante do aquário.

Ele fica a contemplar o aquário.

Esse pequeno mundo de água límpida. O ruído discreto do motorzinho a fazer subir e descer o bonequinho astronauta, em meio às bolhas que se desfazem a cada segundo.

Os peixinhos, que se movem sem parar, sempre procurando abocanhar algum alimento. Outros escondem-se entre as plantas do aquário e mais os que vem até o vidro beijar sua transparente superfície.

Mulder sorri pela beleza e quietude que sugere esse cenário.

Volta-se, em seguida, para Dana:

Mulder sorri.

Ela sorri, também.

Mulder retira o pesado sobretudo que está vestindo. Joga-o sobre uma cadeira. Senta numa poltrona. Retira os sapatos e as meias. Coloca as meias dentro dos sapatos.

Dana o olha, de pé, sem nada falar.

Sente-se extasiada de ter ali, tão perto, o homem por quem tanto anseia em todos os instantes de sua vida.

* * *

Dana liga o botão da cafeteira elétrica. Abre o armário, retirando xícaras e pratos. De sobre o escorredor de louças que está sobre a pia, retira talheres.

Sente as mãos de Mulder ao redor de sua cintura, quentes e acariciadoras, segurando-a por trás.

Ele beija-lhe a nuca.

Ela força o corpo contra o dele, sorrindo, largando os talheres na pia.

Ele a faz virar-se para ele. Aperta-a, amorosamente, contra a parede da pia. As mãos grandes de dedos cautelosos e doces, desamarram o robe branco de cetim, que Dana está vestindo. Abre-o e contempla o corpo dela à mostra, diante de seu olhar cobiçoso.

Dana o envolve com os braços pelo pescoço e sente as gotas de água do banho que ainda permanecem em suas costas, e que não foram levadas pela toalha.

Ele começa por deslizar os lábios sequiosos sobre o pescoço dela, procurando os caminhos que sua boca percorre com sofreguidão e doçura ao mesmo tempo. Vai descendo seus beijos sobre os seus seios, sugando-os docemente, acariciando-os, enquanto verga o corpo alto diante da figura pequena da mulher amada.

Dana deixa-se enlevar pela sensação doce, que lhe faz vibrar as carnes de desejo.

Todo o seu ser só pede que ele tome posse do seu corpo, sem demora.

Colocando sua boca sobre a dela, ela a faz calar-se.

Ela sorri, deixando-se beijar, enquanto ele rebusca as reentrâncias das intimidades do seu corpo.

Os sentidos de Dana vibram em êxtase.

* * *

Mulder olha o relógio digital na mesinha de cabeceira:

2:37

Ele continua fitando os pontinhos luminosos, piscando ininterruptamente. Permanece quieto. Não quer acordar Dana, ao seu lado.

2:38

Ele vê passar o minuto seguinte. Suspira profundamente.

2:39

Neste exato momento sente-se um pouco feliz. Está com o amor de sua vida. Percebe que Dana move-se, levemente, em seu lugar na cama.

Ele continua quieto. O relógio prossegue no seu piscar, sem fim.

2:40

Mulder estica o braço até a mesinha, querendo tocá-lo com os dedos.

Logo após esse gesto, sente os dedos de Dana entre seus cabelos.

Volta-se para ela:

Ela sorri:

Ele não responde prontamente. Faz uma pausa . Aperta-a mais contra si.

Ela tapa-lhe a boca com os dedos.

Ela o observa, atentamente. Num repente, vêm-lhe algo à mente.

Ele lhe sorri.

Mulder agarra-a, impetuoso, e a faz rolar sobre os lençóis. Pára quieto, com o rosto enfiado no peito dela.

Ela levanta a cabeça dele de sobre seu peito, chocada com a idéia.

E enquanto a aperta em seus braços, enquanto lhe é possível usufruir desse momento gostoso, em que tem sua amada Scully tão junto a si, lhe maltrata o coração em pensar negatividades, pois não consegue deixar de pensar que algo ruim deve impedi-lo de realizar todos os seus objetivos.

Os olhos verdes transparentes de Mulder, dentro das suas pálpebras apertadas, fitam-na intensamente.

Dana mostra um sinal de angústia em sua face. Seus olhos de imenso azul, que indagam sempre, lançam-se na direção dos de Mulder.

Dentro de si, lá no âmago do seu coração se pergunta como e quando poderá ser feliz, viver em paz, se ela e Mulder ainda não encontraram e nem sabe se encontrarão respostas a todas as suas dúvidas.

Por enquanto, só fica a dor da inquietação.

"A dor só dói por fora,

por dentro ela corrói..."