A VIDA DE UMA CRIANÇA

"A melhor maneira de tornar as

crianças boas, é torná-las felizes."

Oscar Wilde

Capítulo 134

"Engraçado!" - pensa Mulder.

Nem sabe o porquê, havia ido parar no mesmo lugar do dia anterior. Defronte ao prédio de Vara de Familia, que trata de adoção de crianças.

Pára na calçada em frente à porta do prédio. Não vai entrar, decidira, pois nada pode fazer ali.

Essas palavras entram pelos ouvidos de Mulder, que passa a observar uma mulher a falar com outra. Estão próximas dele. Na mesma calçada.

Mulder apura mais os ouvidos. Interessa-lhe a tal conversa.

Mulder sente-se incomodado com as palavras que ouve, saídas da boca da mulher, que usa frases bem pronunciadas, conversando com sua colega.

Mulder ouve mais essa frase. Percebe que está sentindo-se inteiramente desnorteado em suas idéias, escutando tal conversa.

Retira-se, imediatamente do local.

Enquanto caminha, os pensamentos tomam conta de sua mente.

"Se Scully escutasse o que acabei de ouvir, enlouqueceria de dor e desespero! É de suma importância que devo fazer algo a respeito desse assunto. É a vida e felicidade de uma criança que está em jogo."

* * *

Bate à porta do quarto de motel. Espera alguns segundos.

A porta é aberta, discretamente.

Mulder cinge a cintura de Dana com seus braços. Beija-a nos cabelos.

Ela nega, com um meneio, mas fitando-o, firmemente, fala emocionada.

Ele aperta-a nos braços. Larga-a, em seguida, e caminha em direção do confortável sofá que decora o quarto. E nele se joga., displicentemente.

E os pensamentos de Dana navegam pelo tempo, até lá longe, no seu apartamento na cidade onde morava.

"William ficava deitadinho no berço e eu, no sofá ao lado, o ficava vigiando, contemplando, extasiada, aquela obra da natureza que Deus me permitiu gerar... o meu amado bebê... e hoje... hoje... ele deve estar balbuciando algum som, como todas as criancinhas na idade dele... o meu filho... que já não posso mais ter em meus braços... eu o sacrifiquei... tornei-o infeliz, a mim e a Mulder também.

E Mulder está ali, deitado, diante de mim, pensativo... em que ele pensa? Quais são seus planos para o nosso incerto futuro?"

Nos pensamentos de Mulder, ali, deitado, correm céleres, as frases que ouvira da conversa entre as duas mulheres, em frente à Instituição para adoção de crianças.

As frases batem e voltam em sua mente e lhe maltratam a alma. Ele a sente acorrentada, presa aos meses passados, quando havia deixado Dana só e sem escolha para sobrevivência sua e de seu filho.

* * *

O forte calor, amenizado pelo vento constante, faz esvoaçar os cabelos de Dana.

Mulder lhe segura a mão.

Diante de seus olhos a imensidão da seca, estéril e avermelhada pradaria, distendendo-se à distância do casario.

Dana cruza os braços.

Um pássaro de longas asas e canto agudo, atravessa o espaço azul, fazendo ressoar o seu piar. Como uma gralha.

Mulder passa a mão nos cabelos. Suspira, levantando a cabeça, olhando para o alto.

Um vendedor ambulante passa por eles, com sua cesta repleta de belas frutas, pousada sobre a cabeça coberta com o grande chapéu de palha decorada.

Mulder dirige-se até o vendedor.

Dana permanece em seu lugar. Olha à sua volta, distraidamente.

Repentinamente, um calafrio atravessa-lhe a espinha.

Um par de olhos negros e felinos, a fita, insistentemente.

"Os olhos não enganam nunca,

mesmo quando procuram enganar."

Madame de Gomery

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