SOBERBA OSTENTAÇÃO

"Ostentação produz soberba,

a soberba produz a ira."

S. Fajardo

Capítulo 135

Mulder retorna.

Disfarça o olhar, para verificar ao redor.

A voz estranha soa muito próxima, junto às costas de Mulder e Scully.

O casal volta-se para olhar quem lhes chama.

Mulder, por sua vez, o indaga, numa linguagem muda, sómente com o olhar, na qual o homem entende.

O desconhecido faz uma reverência.

Dana sente-se estranhamente incomodada com a insistência do sujeito em permanecer ao lado deles.

Olha para Dana, que também dirige o olhar em sua direção.

Mulder dá de ombros, dando a entender a Dana, que não há importância em aceitar o convite do desconhecido.

O casal acompanha o homem. Que os encaminha para uma Limousine.

Mulder faz um gesto de surpresa.

Dana pára de caminhar. Fala, também, num murmúrio.

Dana suspira. Cruza os braços, olhando impassível para o veículo, cujo motorista faz gestos amáveis, convidando-os a entrar no luxuoso veículo.

Mulder, impulsivo como sempre, puxa Dana por um braço.

Ela sai de sua impassividade e acompanha-o

O casal entra no carro.

Dana continua sem sentir-se à vontade.

Mulder denota inteira descontração.

O homem entra, por fim, e o motorista também, logo pegando o volante.

* * *

Mulder bebe um pouco da taça em sua mão.

Mulder dá uma risadinha.

Mulder o olha.

O garçon lhe entrega a folha.

Este levanta-se. Pousa a mão rapidamente, sobre o ombro de Dana, fazendo-a entender, com o olhar, que vai sair por uns instantes da mesa.

Dirige-se ao outro salão do amplo restaurante.

Dana está à mesa somente com a companhia do seu mais recente, desconhecido e vaidoso amigo.

Ele a fita, neste momento, descaradamente.

Ele nada retruca. Está com os lábios entreabertos, fitando-a, ardentemente.

Dana faz menção de levantar-se.

Ele a segura pela mão, impedindo-a

Dana sente na expressão usada por ele um terrível mal-estar. O homem está abusando de sua boa educação.

Imediatamente no pensamento de Dana, vêm as palavras que lera na Bíblia Sagrada:

"O mundo jaz no maligno."

Tudo aquilo que lhe está sendo oferecido é uma artimanha do mal que reside neste mundo, para tentá-la e, quem sabe, até atormentá-la.

Mulder já está se aproximando de volta à mesa. Tem uma fisionomia tranquila.

Dana suspira aliviada.

Mulder senta-se à mesa, no seu jeito displicente de ser. Dirige um olhar satisfeito para o desconhecido.

O homem levanta as sobrancelhas, parecendo admirado com as palavras de Mulder.

Dana o fita, num olhar quase desesperado, no qual ela ali lhe suplica não aceitar os hipocritamente gentis convites do homem que demonstra tanta ostentação.

O homem pigarreia, nervoso.

Mulder levanta-se. Fita, com os olhos pequenos e apertados, o homem à sua frente, que é todo gentileza. Seus maxilares pulsam dentro da carne, sob a pele morena, pela barba cerrada, mas escanhoada.

Dana está observando as palavras e a atitude austera de Mulder. No seu interior entende que algo está ocorrendo na mente dele. Só não atina com o que. Há um tom de intenso sarcasmo nas palavras que ele pronuncia.

Um soco muito bem desferido no rosto de Cortez, impede-o de concluir a frase.

Mulder, após esse impetuoso gesto de raiva, toma a cadeira por seu espaldar e a atira no chão, como se quisesse praticar tal gesto com o homem que está à sua frente.

As demais pessoas ali no grande salão, observam, boquiabertos, o incidente.

O homem agredido reage apenas colocando a mão trêmula sobre a pele da face avermelhada pelo murro recebido do punho de Mulder.

Mulder puxa Dana pela mão e ambos dirigem-se para a porta de saída, em passos rápidos.

Três homens chegam até Cortez.

Mulder e Dana já caminham na calçada em frente ao restaurante.

Ela, andando rápida ao lado dele para alcançar seus largos passos, fala-lhe.

Ele pára, a fim de que ela possa chegar até ele, por fim. Olha-a, apertando os lábios.

Um sorriso desenha-se na boca de Dana. Tem consciência de que o seu Mulder é extremamente intuitivo e, quando menos ela podia esperar, ele já lhe demonstra seus poderes de antecipado entendimento das coisas mais sutis.

Com os braços desejosos por apertar o seu amado, contém-se, porém e apenas pronuncia uma única e apaixonada frase:

"O homem tem um farol: a consciência."

Victor Hugo

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