BASTANTE TEMPO AINDA

"A melhor maneira de se empregar o tempo é arruma-lo

como se faz a uma valise; deixar as pequenas coisas para

os pequenos espaços que sobrarem."

Sir Henry Haddow

Capítulo 142

 

Cessam o riso.

Dana, sem jeito, sai da posição de tensão em que se encontrava e cobre a boca com os dedos.

Mulder está parado. Continua fitando-a, agora. Seu semblante denota, nesse instante, o seu característico e famoso ar de cachorrinho abandonado.

Ela atira-se nos braços dele, tranquila, deixando que ele a aperte contra si e lhe afague os cabelos.

Mulder não responde. Demonstra assentir, só com seus braços a apertarem-na, com calor.

Um silêncio de vários minutos transcorre.

Mulder quer relembrar a noite em que passara na floresta escura, perdido, com Dana, ambos receosos de que aparecessem diante de si algum dos homens-mariposa.

Ele inicia, então, entoando com notas musicais:

Mulder parece entender, rapidamente.

Desvia-lhe a atenção, fazendo-a dirigir o olhar para outro lugar.

Ela suspira profundamente, enquanto cinge o pescoço de Mulder com os dois braços.

E ele continua:

* * *

O clarão da lua assemelha-se a algo irreal, caindo sobre a imensa pradaria, que finda onde começam as montanhas. Poucas árvores arriscam-se a sobreviver na árida região.

De vez em quando o piado de algum pássaro noturno quebra a noite.

Mulder, deitado em sua cama, deixa-se levar por pensamentos. Olhos abertos.

"Bem que a senhora com quem eu falei lá naquela Vara de Infância me deu uma ótima orientação. Quem adotou meu filho tem que ser uma pessoa de mais de vinte e um anos; ou m casal bem casado, tendo, pelo menos um do casal, maioridade. Tenho que preparar um requerimento e este tem que ser para Extinção de Adoção. E ela prometeu-me conseguir a lista de documentos para esse fim."

Neste momento sente grande alegria interior.

"Nem posso imaginar a emoção de Scully quando tiver seu filho de volta!"

Ele sente que suas pálpebras vão se rendendo ao sono. Por maior sofrimento e dificuldades que ele e Scully estejam passando, sabe que um Ser Superior está na direção de suas vidas e os ajudará, porque, afinal, sempre agiram decentemente, dentro da justiça e da verdade.

"E Deus se compadecerá de nós." - fala para si, movendo os lábios, sem usar a voz.

Ao seu lado, Dana está deitada, voltada para ele, de lado, sossegada, silenciosa. Apenas um leve gemido ele ouvira, saindo de sua garganta.

* * *

Com ansiedade, Mulder, sentado na sala de espera, balança, imperceptivelmente a perna, demonstrando seu nervosismo.

Ela o chama para seu gabinete de trabalho.

E a mulher passa às mãos de Mulder, a lista de documentos.

Ele agradece e sai.

"Foi bom conseguir com essa mulher dados de como ter William de volta. Estou ciente, é claro, de que vai levar bastante tempo, ainda, até eu conseguir meu objetivo, mas o meu desejo será realizado. E poderei ser feliz e assim fazer Scully ser também.

Agora tenho que falar com Maggie."

E com esses pensamentos, segue, com seus passos apressados.

Andando na calçada estreita da rua apinhada de pessoas agitadas, apressadas sob o causticante sol, dirige-se a uma exígua cabine de telefone público.

Ele entra. Pega o fone. Pensa algo por alguns segundos. Disca o número no aparelho de modelo antigo.

Skinner sorri, satisfeito com a notícia. Havia se levantado da cadeira ao ouvir a voz de Mulder. Agora senta-se, novamente.

Skinner tira os óculos. Coloca-os na mesa. Passa a mão sobre os olhos.

Há uma pausa. Mulder morde o lábio inferior.

Mais uma vez haviam dado fim aos resultados do seu árduo trabalho de Agente Federal. Mas sabe que seus principais assuntos haviam sido guardados em casa de Scully. Tanto melhor. Estarão seguros lá.

Mulder desliga sem mais nada falar.

Mas ele acredita nas palavras finais de seu antigo Diretor Skinner.

Sempre demonstrara ser seu amigo em todas as ocasiões.

"É alcançar muito de um amigo, se tendo

subido ao poder, ainda se recorde de nós.

La Bruyère

Nota: Desejo aqui externar os meus agradecimentos à minha amiguinha Debora Costa, pela preciosa colaboração na pesquisa que me ajudou muito a criar o tema que ora passa a ser o principal objetivo nas narrativas dos Devaneios.

wanshipper@yahoo.com.br