DÚVIDA

 

"A dúvida é a nossa

eterna companheira."

Campoamor

 

Capítulo 16

 

A porta do escritório é batida com estrépito.

Mulder entra na sala.

Scully levanta o olhar de sobre a pilha de pastas-arquivo à sua frente sobre a mesa.

Nada fala.

Mulder aparenta estar com os nervos em frangalhos.

Scully franze as sobrancelhas para melhor observá-lo, em silêncio. Retira os óculos.

Mulder atira-se sobre uma cadeira; a gravata, como sempre, afastada do lugar. Ele arranca o paletó de sobre o corpo e atira-o, displiscentemente sobre a mesa.

A enorme pilha de pastas, equilibrando-se perigosamente, balança ao passar por ela o vento formado no espaço pelo paletó de Mulder.

Mas os valentes arquivos empilhados conseguem manter-se equilibrados.

Mulder leva as mãos ao rosto, sem acreditar em sua pergunta:

Permanece assim por quase um minuto.

Scully levanta-se e vai para junto dele.

Ele retira lentamente as mãos do rosto, deslizando-as sobre a pele...

Scully já encostada a ele passa-lhe a mão nos cabelos revoltos. Fala com voz mansa:

Mulder levanta-se. Aperta-a contra si, sem mais inibição como antes.

Scully sentira que, lá dentro do coração, já adivinhara há muitos minutos atrás, o que Mulder lhe iria falar.

Mulder, de imediato quer procurar-lhe a boca, porem Scully afasta-se, saindo de seus braços.

Mulder levanta as mãos espalmadas.

Neste exato momento a porta abre-se e entra um dos agentes no escritório.

Em seguida ela lança a Mulder um olhar de cumplicidade, que refere-se à discreção que, necessáriamente, deve ser usada dentro do escritório a fim de evitar flagrantes românticos.

Mulder franze os lábios, entendendo.

Scully afasta-se mais e cruza os braços.

Scully aproxima-se e, discretamente, segura-o pelo braço, para que àquele toque ele sinta sua força e ponderação, procurando acalmar-se.

- Já disse-lhe o que penso sobre isso, Kearns. - corta-lhe Mulder a frase, convicto de suas palavras.

Mulder, agitado, vai até a porta e abre-a, fazendo um gesto sem olhar para ele.

Kearns entende a ordem um tanto velada de Mulder e sai, não sem antes lançar um olhar para Scully, que mantivera-se de pé, braços cruzados.

Scully está um tanto temerosa em vêr Mulder nervoso com o fato.

Mulder bate a porta com força à saída de Kearns.

Mulder mostra para Scully um largo sorriso.

Agora ele chega perto dela, apanhando o paletó de sobre a mesa.

Sussurra aos seus ouvidos:

Aperta-a contra si.

Scully sorri.

Mulder veste o paletó e seu braço, inadvertidamente, encosta na grande pilha de pastas-arquivos sobre a escrivaninha.

Esta, desequilibrada, despenca ruidosamente no chão, esparramando-se.

Os dois contemplam o desastre acontecido.

Seus olhares atônitos em princípio, transformam-se, aos poucos em olhares zombeteiros e seus lábios começam a distender-se num sorriso, que, logo em seguida, transforma-se em boas risadas.

Abraçam-se ali mesmo, diante das pastas esparramadas no chão.

Abraçados deixam o escritório, trancam a porta e saem.

Ali, no entanto, do lado de fora, afastam-se e como sempre o fizeram, sobem as escadas somente como dois colegas e amigos, para tomar o elevador.

 

 

X x x x x X

 

Mulder bate a porta do carro, para em seguida ligá-lo.

Lá adiante, já bem distante, já pode divisar o carro de Scully que dirige-se para casa, visto que ela pegara seu carro na garagem em local mais à distância do seu e saira em primeiro lugar.

Em sua mente não lembra de forma alguma ter falado a ela que iria vê-la depois, mais tarde.

Automaticamente consulta o relógio: 7:40hs.

A noite está fria e em seu pensamento sente que tem necessidade de estar junto dela numa noite como essa... e nas outras também.

Ela nada lhe insinuara, porem; nem uma palavra sequer, se iria esperá-lo ou não.

Essa dúvida martela a mente de Mulder.

Sente-se incomodado.

Tateia o bolso para sentir o celular.

" Devo chamá-la?" - pensa se deve ligar e perguntar alguma coisa sobre isso.

Mas não o faz. A dúvida sobrepuja todos os seus desejos. Continua a dirigir, vendo as luzes da rua desfazerem seus focos diante de sua vista cansada.

 

X x x x x X

 

Mulder joga as chaves e o celular no sofá.

Tira o paletó, camisa e os vai jogando pelo chão.

Sente necessidade de um benfazejo banho para adquirir forças e pensar com mais clareza.

É o que se predispõe a fazer agora.

 

X x x x x X

 

Scully entra no apartamento pensativa.

Gira a chave na fechadura para trancar a porta.

Sente que seus gestos estão desalentados, sem ânimo.

"É a falta dele!" Seu coração anuncia.

Vai para o quarto. Está escuro. Ela assim o deixar ficar.

Permanece de pé, por alguns minutos, olhos fechados, rememorando a cena da noite anterior.

"Foi tudo tão bom! Senti o seu amor, o seu calor, o seu corpo ansiando pelo meu!" - pensa.

Tira o blazer. A roupa toda em seguida e dirige-se para o banheiro.

Acende a luz. Coloca-se diante do espelho.

"Ele me tocou com aquelas mãos que adoro! Me possuiu toda pra ele! Eu o amo!"

Toca levemente em seu busto, sabendo que Mulder agora era o dono total de todo o seu corpo, toda a sua vida, até.

 

X x x x x X

Mulder está sentado, displicentemente, mordiscando uma a uma suas sementes favoritas.

Necessitaria agora estar com as pálpebras a cair sem forças, pelo sono e o enfado do dia.

Entretanto está com o olhos bem abertos; sente o corpo excitado. E o cansaço? E o sono que não vem?!

Na TV a tela exibe imagens que passam aos seus olhos como flashes sem nenhum sentido.

Não vê e nem ouve nada do que ali aparece.

O tilintar do telefone o faz estremecer de susto.

Joga a mão por sobre o aparelho próximo de onde está, com os olhos fixos à tela da TV.

Porem o aparelho está mudo. Irritado, solta um muxôxo.

O chamado continua e, por fim, ele nota que é o celular que está tocando.

Pega-o para atender.

Ele percebe que ela vacila para responder.

Ele não está mais com paciência de esperar:

- Scully... olhe... só responde sim ou não... eu vou entender... - anda a passos largos, nervoso, de um lado para outro.

 

X x x x x X

 

Mulder dá uma rápida batidinha na porta. Logo gira a chave na fechadura.

Sente os dedos trêmulos de ansiedade.

Entra na sala e fecha a porta.

Ela aparece à porta do quarto.

Mulder solta um assobio de admiração

Scully usa um traje completamente informal, porem sem nada notadamente diferente.

Apenas Mulder a está vendo de um outro modo agora, e isto a faz tornar-se mais bela diante de seus olhos.

Mulder nem se atreve a abraça-la de imediato. Aguarda.

Scully chega até ele. Toma seu rosto entre as mãos. Beija-o suavemente nos lábios.

Scully ri, achando engraçada a atitude dele:

- Eu sei que não, Mulder! Mas o convido para jantar!

Ela o fita, com as mãos na cintura, sorridente.

 

X x x x x X

 

Sentados no sofá, dão uma lida no jornal do dia. Estão sentados bem juntinhos.

Mulder passa o braço por sobre os ombros de Scully.

Ela deixa-se puxar para mais perto.

Ele aconchega-a mais para si:

Os dois falam bem baixinho, juntinhos; ele ainda segura seus ombros, apertando-os ternamente contra os seus.

Segura-lhe a mão.

Scully segura as mãos de Mulder, por sua vez.

- Amanhã?! - estende as pernas para a frente - Sem ser FBI, FBI, FBI, trabalho, trabalho... não sei! - faz uma pausa; olha somente para o jornal em seu colo, agora - Scully ... ahn... é...

Ela o fita, levantando as sobrancelhas, estranhando a hesitante pergunta dele.

Scully assente, fitando-o, intensamente.

- Hoje...? - ele quer saber.

Ele abraça-a, carinhoso.

Toma-lhe as mãos e conserva-as bem juntinho de seu corpo.

Um frêmito de prazer corre pelas fibras do corpo de Scully ao sentir o roçar dos lábios dele em seus ouvidos.

Sente a ansiedade que emana dele, pelo ruído da respiração ofegante que penetra até o âmago do seu ser.

A boca sensual de Mulder que ela tanto adora, continua a deixa-la em êxtase.

Scully sorri com os gracejos de Mulder.

Deixa-se mais acariciar.

Scully decide parar de fingir que está descontraida. Suas emoções estão à flor da pele. Apenas não tem a coragem de iniciar algum gesto de sedução para o homem que tanto ama.

Encosta a cabeça no ombro de Mulder. Suspira profundamente.

Sente-se em paz e feliz por estar ao lado dele.

Mulder sente o calor dela em seu ombro.

Volta a cabeça para beijá-la levemente na face.

Beija-a em seguida sob os lábios, no queixo; apenas uma suave carícia. Não quer força-la se não desejar corresponder ao seu gesto de intenso amor.

Aos pouquinhos, porem, chega até seus lábios.

Mulder coloca a boca sobre a de Scully, com timidez.

Ela corresponde àquele ato de amor.

Logo aquela ternura transforma-se em volúpia e paixão.

Apartam-se finalmente.

- Eu nem notei! - ela responde, levando a mão dele até o generoso decote de sua blusa.

Em seguida levanta-se, segurando-o pela mão.

Num gesto inesperado toma-a nos braços e carrega-a para o quarto.

Entram no quarto.

Mulder, com um pé bate a porta para fechá-la atrás deles.

 

CONTINUA...

"A vida é uma flor de que

o amor é o mel."

Victor Hugo