UMA MULHER SÁBIA

"É fácil encontrar defeitos,

qualquer um pode faze-lo,

mas encontrar qualidades,

isto é para os sábios!"

Capítulo 181

Mulder continua a falar.

Nos ouvidos de Dana, a voz dele, sussurrante, com as célebres bolinhas de gude rolando-lhe na garganta.Ela fecha os olhos. Sente as carícias dele, enquanto ele lhe fala, suavemente.

em cada pensamento um ato

em cada ato um momento

em cada momento uma saudade

em cada saudade... você

em cada dia um livro

em cada livro um porquê

em cada porquê uma resposta

em cada resposta ... você

em cada pensamento uma lembrança

em cada lembrança um sentimento

em cada sentimento uma paixão

em cada paixão... você

em cada noite uma estrela

em cada estrela um brilho

em cada brilho um olhar

em cada olhar... você.

Dana o acaricia, suavemente. Não quer faze-lo continuar nesse ponto em que tristes lembranças chegam até a mente dele, fazendo-o sofrer.

Mulder suspira. E continua.

Ele desliza os dedos longos levemente sobre o corpo dela. Joga o olhar esquadrinhador sobre o seu rosto claro e cheio de pequenas sardas.

Ela o fita, amorosamente, afagando-lhe um braço.

Ele dá uma risada.

Dana suspira profundamente.

Ele nada replica. Seus olhos estão pesados. E sua mente, vagando idéias mirabolantes, já está quase adormecida. Mas quer pensar mais. Lutar para que o sono não chegue logo. Sente o corpo quente, febril, pelas inúmeras ferroadas que seus membros haviam sofrido.

"Aquelas abelhas estranhas... será que são transmissoras de algo que poderia vir a nos prejudicar? As daquele tempo em que derrubaram Scully eram enviadas por inimigos... - faz um muxoxo, chateado com tais pensamentos - Pára, pensamento chato! Droga! Eu quero dormir! Preciso descansar!"

Porém, mesmo recusando-se a pensar, chega em sua mente o brilho e o vôo dos estranhos insetos que lhe haviam chamado a atenção.

* * *

Mulder, com William nos braços, caminha, vagarosamente, pela rua arborizada.

O canto dos pássaros nessa manhã ecoa pelo espaço, enchendo de vivacidade e maviosidade o local.

O garotinho corre até ele, alegremente.

O garoto pára diante de Mulder. Olha para cima, na direção do rosto do ex-agente, contrastando sua pequenez com a altura do homem diante de si.

Mulder afaga os cabelos do garoto.

Mulder dá uma risada. Toca os lábios, rapidamente, na face de seu filho, que agarra-se ao seu pescoço.

Mulder observa, atentamente, o garoto.

Mulder levanta-se; ajeita William em seu braço.

Mulder toma a direção que o menino segue, acompanhando-o até sua casa.

Logo chegam e Mulder estaca diante do portão baixo.

O menino já entrara em casa, correndo.

Mulder aguarda, sem penetrar no jardim.

Uma jovem senhora aparece na soleira da porta de entrada.

George já vem saindo, carregando um jornal.

O menino aproxima-se e lhe entrega o noticiário, totalmente desfolhado.

George bate o pé, irritado:

Mulder, mesmo sob o olhar de descontentamento da mãe do menino, desfolha o jornal de formato pequeno e poucas páginas. Nada vê, que lhe chame a atenção.

O menino afasta-se, para entrar na casa, sob o olhar pesaroso de Mulder.

A vizinha prepara-se para afastar-se e entrar na casa.

Mulder a acompanha, olhando de soslaio. Aperta os lábios. Não sabe o porquê da mulher estar encobertando as afirmativas do filho. Desfolha, novamente, as páginas do noticiário semanal. Em segundos, seus olhos detectam algo de seu interesse..

"Não há coração humano ao qual a

ambição e o interesse sejam estranhos."

La Bruyère