ENTUSIASMADO

"Perder o entusiasmo

provoca rugas na alma."

Samuel Ullman

Capítulo 186

O dia seguinte encontra Mulder de pé, no quarto de dormir, olhando Dana em pleno sono, ainda, no início da manhã.

Ela fôra muito machucada no dia anterior e sua cabeça ainda não está bem. Nesse momento dorme tranquila, sem perceber que Mulder já havia levantado.

Ele a está contemplando, amoroso. Aproxima-se, beija-a suavemente na face. Ergue o corpo, dirige-se ao banheiro para cuidar-se, apressadamente.

Dali dirige-se ao quarto de seu filho. Aproxima-se do berço, apreciando o seu sono. Toma-lhe uma das pequeninas mãos. Beija-a, suavemente. Seus pensamentos volteiam ao passado.

"Que coisa maravilhosa podermos gerar nosso filhinho! Sinto-me imensamente feliz, agora. Scully jamais tomará conhecimento de quanta tristeza me causou saber, por Skinner, que ela havia entregue nosso filho para doação. Meu coração doeu demais com aquela notícia! Foi o máximo que eu poderia aguentar, depois de todo o sofrimento pelo qual eu já estava passando, na época. - ele faz uma pausa nos pensamentos; abaixa-se e beija a testa de William - Que Deus o faça muito feliz nesta terra e que ele não passe todo o sacrifício que tivemos que sofrer."

O interior da casa ainda está escuro. O sol ainda nem havia despontado no horizonte.

Mulder segue para a sala. Vê sobre a mesa um jornal bem dobrado, demonstrando estar ainda intacto. Ninguém o havia lido, ainda.

Ele senta-se. Começa a abrir as poucas páginas do semanário. Vai percorrendo com o olhar cada uma delas, atentamente. Está até curioso, desejando saber se nesta semana haverá alguma intriga, alguma situação que causa desavenças entre os moradores do bairro, como tem acontecido ultimamente.

Inúmeras fotos aparecem, porém, aparentemente, não são comprometedoras, assim pensa ele.

"Na verdade, será que, realmente, são preparadas com má fé... ou não? Mas, na verdade, existe má fé na história, já que há denúncia daquela fabricação de biscoitos clandestina e a outra, na qual condena a vizinha, taxando-a de infiel ao marido... então é tudo tramado mesmo, para causar intrigas e maledicências."

Mulder, ao passar distraidamente o olhar numa das páginas, sua vista depara-se com uma foto de tamanho médio, cuja legenda chama-lhe a atenção. Fixa nela o olhar, um pouco desatento, lendo:

O BEIJO

Um tanto cinematográfico, mas...

serão mesmo casados?

A foto mostra somente o close de duas bocas se unindo para um beijo.

Mas o que impede haver qualquer equívoco neste momento, é a perfeição com a qual é mostrado o contorno dos lábios da mulher que aparece na foto.

"Não há dúvida!! É ela!!" - ele diz em seu pensamento, sem titubear.

A pele muito clara, no pouco que aparece do rosto, mostra pequenas sardas. Um sinal preto, logo abaixo do nariz, as narinas levemente levantadas, sobre um conjunto de lábios bem delineados e polpudos e o bem pronunciado sulco que marca a divisão central de sua parte superior.

"Inconfundível! É a boca de Scully!" - pensa, estarrecido.

Logo em seguida vê que é a sua própria boca que está junto à dela.

Instintivamente, passa os dedos sobre os lábios; corre para um espelho pendurado na parede do recinto. Confere. Analisa. Vê que são seus próprios lábios ali, naquela foto delatora de um momento de sua intimidade.

"Mas... como e quando foi que...?"

Fica perguntando-se a si mesmo como havia sido possível alguém fotografá-los, assim, tão facilmente e de tão perto.

Rebusca em sua memória, a fim de encontrar algo que o faça lembrar-se da ocasião em que pudesse ter beijado Scully em via pública.

"Via pública?! - duvida dessa idéia - Impossível!"

Mulder concentra-se por alguns momentos. Fecha os olhos. Franze a testa, carregando o semblante. Aperta os lábios.

Solta a frase enraivecido e, ao mesmo tempo, entusiasmado. Havia lembrado perfeitamente de onde viera a cena flagrada pela foto do jornal clandestino.

"Agora lembro-me, perfeitamente! Foi lá fora, no jardim! A abelha junto de nossos rostos!"

Joga de volta o jornal sobre a mesa.

Veste rapidamente o casaco de couro preto. Sabe que sua família está ainda dormindo, mas ele não tem tempo a perder. Toma o rumo da casa assobradada, morada do velho cientista.

Mal alcança a quadra mais próxima da casa, Mulder já pode distinguir o homem que nela reside passando, ligeiramente, um pano sobre o parabrisas do automóvel caríssimo, último tipo, estacionado bem junto à residência.

O relógio Rolex em seu pulso, brilha, mesmo sem ter a luz do sol sobre ele. O homem prepara-se para entrar no carro. Olha à sua volta.

Mulder está acobertado por um grosso tronco de árvore da longa rua. Isso impede que o vizinho suspeito o veja.

O homem dá marcha no veículo e sai, fazendo-o zarpar em disparada.

O ex-agente anda, em passos rápidos, na direção da casa. Chega logo em frente a ela. Pára. Olha para o andar de cima, procurando uma rápida resolução. Resolve ir para o mesmo lugar no qual havia entrado com Dana. Sua vista detecta no chão um pedaço de madeira, forte, comprido e pesado. Toma-o, decidido, percebendo a serventia que o mesmo iria ter, a partir daquele momento.

Ele força a porta de madeira.

A escuridão é completa, no lugar. Verdadeiro breu.

"Agora já sei que tem aquele guardião de lata aqui neste local, portanto... sentidos, atenção!"

Caminha com os braços estendidos para a frente e para o lado, alternadamente, desferindo no ar golpes em todas as direções.

Súbito, sente que seus pés resvalam nos tubos que o haviam derrubado da outra vez. Até estava esquecido do pé que havia tido uma entorse e que, neste momento, volta a incomodá-lo, numa dor aguda.

"Droga!"- pensa, chateado.

Ele pára no lugar e continua a desferir os golpes no ar.

CLANK!!

O barulho forte corta o espaço.

Mulder conseguira atingir o seu objetivo.

Imediatamente, as luzes acendem-se no local.

"É isso! O painel no robô!"

Ele repara que havia atingido os botões exibidos no painel quadrado disposto à frente do boneco eletrônico.

O grande robô avança em sua direção.

Mulder, munido com a comprida madeira que tem às mãos, vai desfechando pancadas no metal brilhante do robô.

Cada botão que Mulder acerta no painel do homem metálico, causa algum efeito dentro do longo corredor.

Repentinamente, as luzes apagam-se.

"Tenho que acertar, novamente, o botão que acende as luzes!" - diz, em sua mente.

Recomeça sua ação de ir desferindo ao encontro do ar, os golpes com o pedaço de pau.

Minutos se passam nessa atitude sua, tentando arranjar um meio de acertar o botão que faz reacender as luzes. Mas, repentinamente, uma dor lancinante o faz parar. Sente que seu pé que está com o tornozelo avariado, havia sido, novamente, vítima de um acidente.

A dor é muito forte. Quase nem pode manter-se de pé.

"Tenho que fazer alguma coisa."- ele pensa.

Uma brutal pancada é por ele percebida, passando quase rente aos seus ouvidos.

"Escapei de mais uma cacetada dessa geringonça!"- imagina.

Súbito, com um de seus golpes jogados no ar consegue atingir naquela escuridão, o botão que liga as luzes.

"Que alívio!" - pensa, enquanto, já podendo ver o robô, atira sobre ele a madeira com tremenda força, que o faz desabar no chão, impotente.

O boneco de metal fica jogado ao chão, piscando todas as luzes do painel que tem na frente do seu corpo, emitindo um zunido como um sinal de alarme.

E Mulder, parado, observa aquela criação proveniente de uma alta tecnologia e fica imaginando a que ponto chega a evolução do ser humano sem alma e sem amor ao próximo.

"Às vezes é bom acreditar na

evolução e pensar que o

homem ainda não está concluído."

John M. Henry