SÓ POR AMOR

"Põe-me como selo sobre teu coração,

como selo sobre o teu braço, porque

o amor é forte como a morte."

Cantares 8:6

Capítulo 196

Ela toca, brandamente, as pontas dos dedos no queixo dele.

Ela cala-se. Fita-o, somente.

Ele a toma nos braços, acaricia-lhe os cabelos, roça os lábios sobre sua testa.

Ela agarra-se a ele, encostando a face em seu peito.

Dana já havia tomado conta de sua boca, colando a sua à dele.

E deixam que o diálogo seja feito com seu beijo.

Numa pausa, Mulder afasta-se do corpo dela, para fitá-la, observadoramente.

Ela permanece calada. Fecha os olhos, parecendo cansada.

- O que está sentindo agora?

Ela aperta os lábios, ainda com os olhos fechados, não querendo encará-lo.

Ele dá de ombros, amolado.

Mulder dá alguns passos para trás; passa as mãos nos cabelos, olhando, estupefato, Dana diante de si.

Ele anda para lá e para cá, agitado. Cenho franzido. Ar aborrecido. Pára, fitando-a, firmemente.

Dana senta-se, lentamente. Sem responder. Nada do que falasse iria convencer Mulder de que aquela fôra a melhor solução.

Ele levanta a cabeça, olhando o teto. Coloca os dedos sobre a boca.

Ela sabe que é uma explicação.

Mulder a escuta dar a explanação, sem nada replicar. Num dado momento, deixa cair os braços ao longo do corpo. Em passos rápidos e decididos, sai da sala.

* * *

Dana está com William sentado em seu colo. Aperta-o contra si. Sem falar. Emotiva. Acabrunhada.

A criança sorri, na sua ingenuidade para a mãe, toca-lhe a face com os dedinhos agitados. Vira um pouco a cabeça para fitá-la, querendo vê-la sorrir para ele. Dá pequenas gargalhadas, divertindo-se no colo da mãe.

O pensamento de Dana, no entanto, está voltado para Mulder. Ela percebe que o havia aborrecido, tolhendo-o no seu desejo de, mais uma vez, ir à procura de problemas. Coloca, porém, em seu coração que não cederá à sua opinião sobre o assunto.

Ela e Mulder têm que sobreviver. E se ela fez aquilo, foi só por amor. E somente poderão conseguir a sobrevivência para continuar o seu amor, esquecendo, mesmo com dificuldades, todos os sofrimentos e torturas pelas quais haviam passado. E ficar bem longe de tudo que possa relacionar-se com os seres de outros planetas. Já é bastante o sofrimento de saber que no ano de 2012...

Prende seu filho entre os braços, com ansiedade e angústia, imaginando sobre o futuro de sua criança.

Maggie, sorridente, chega à procura de Dana.

A filha não lhe responde.

Maggie pega seu neto e coloca-o no chão, para andar.

William vai dando pulinhos, seguro nas mãos da avó.

Dana reflete por um momento. As lágrimas dançam dentro de seus olhos azuis. Desde a manhã Mulder não lhe dirige a palavra. Está magoado.

Ela vai até o quarto. Para sua surpresa, ele não encontra-se lá. Suspira profundamente. Dirige-se a uma pequena sala de estar confortável que há na casa. Imagina que ele esteja nesse local. E, realmente, ali o encontra.

Mulder está deitado no sofá; cabeça recostada num dos braços fofos do móvel e os pés apoiados no outro.

Dana aproxima-se, pé ante pé. Sem fazer nenhum ruído. Talvez ele esteja dormindo. Ela o observa, sem chegar perto. Sente que o peito lhe dói. Está estressada, sofrida, angustiada. E esses sentimentos assim reunidos sempre lhe causam um distúrbio físico que passa a incomoda-la por vários dias. Sua respiração está opressa. Não consegue respirar fundo. Nervosa. Há tempos não se sentia assim.

Aproxima-se mais, de modo que ele não a veja. Suspira. Deseja tanto poder atirar-se nos braços dele! Mas contém esses impulsos. Logo vê algo que a anima.

É a mão de Mulder estirada para fora do braço do sofá e num gesto de que deseja a aproximação dela.

E Dana chega-se a ele, então. Segura a mão que ele lhe estende.

Ela curva-se para ouvi-lo.

Ele senta-se e, imediatamente, a faz sentar-se ao seu lado. Abraça-a com força. Enfia a cabeça em seu peito.

Dana beija-o nos cabelos, segurando seu rosto com as duas mãos.

Ela sorri, levemente.

Ele abraça-a, com mais força.

"Infeliz daquele que ao tempo

confia a cura de seus males."

Calderon