PARTE 21

Na pousada, Dana aprecia a cascata que desliza suas águas, incessantemente, atirando-a contra as pedras escuras. Da varanda do apartamento pode ver os turistas cavalgando lá fora, no chão de terra.

Um bando de araras vermelhas passa em imenso barulho sobre o lugar, chamando-lhe a atenção. Ela detém-se em olhar as livres aves em seu vôo no espaço azul.

Batem à porta.

Dana vai abrir.

Dana afasta-se da varanda. Entra e senta-se; com a cabeça baixa e mãos cruzadas sobre o colo.

A outra acomoda-se, para ouvi-la.

Dana permanece calada por instantes. Parece refletir no que vai dizer. O que poderia explicar neste momento, se certas coisas que lhe passam pela cabeça, não deverão chegar, certamente, até o conhecimento de sua ex-colega e amiga? Pelo menos, por enquanto.

Saem da Pousada.

Do lado de fora podem passar por um grande viveiro, onde belíssimas aves estão pousadas em galhos. Parecem tranquilas.

Mais adiante um outro viveiro chama a atenção das duas mulheres.

O ruído barulhento das pequenas aves de penas verdes, atrai a atenção de muitos hóspedes do local.

No mesmo instante, seus olhos divisam algo mais interessante.

Duas emas andam, vagarosamente, em seu passo cuidadoso, pelo local, observando com seus olhos curiosos, os visitantes.

Dana ri, satisfeita, vendo os belos espécimens da natureza.

PARTE 22

Mulder balança negativamente a cabeça e Doggett apenas o olha.

Mulder e Doggett já haviam se aproximado mais do homem para ouvir sua explanação.

Doggett dá de ombros, com descaso.

O agente e Mulder despedem-se do homem conversador.

O guia os está levando agora até uma caverna.

Um homem de roupas humildes, vendendo caldo de cana feito na hora, chama a atenção de Mulder.

O outro concorda.

Aproximam-se do homem e pedem o caldo de cana.

Mulder denota impaciência.

Neste exato momento, porém, um outro comprador aproxima-se e pede um copo de caldo de cana.

O vendedor começa a conversar com o novo freguês que acabara de chegar.

Mulder mete a mão no bolso, com o intuito de pagar a despesa.

O outro comprador acabara de tomar o caldo de cana. Parecia interessado em ouvir mais da narrativa do vendedor.

Mulder, discretamente, faz um gesto com um dedo na própria fonte, girando-o, para indicar ao outro que o vendedor está biruta. Sua intenção é, justamente, fazer com que o homem perca o interesse pelo assunto e se afaste o quanto antes.

Doggett o olha, com ar de mofa.

Uma buzinada de chamada é ouvida neste momento.

O homem olha para trás e dá sinal para um carro que o está esperando ali próximo.

Os dois afastam-se do vendedor para saírem dali.

PARTE 23

Doggett olha para o alto, enquanto aguarda a resposta de Mulder, que permanece calado.

A noite nas redondezas está escura; nem estrelas nem lua, iluminando o céu.

Doggett resolve tirar Mulder de suas reflexões.

Mulder está com os olhos fixos num ponto do escuro céu.

Doggett não responde. Seu olhar está fixo, observando o ponto luminoso, que dá inúmeras voltas no espaço e que vai aumentando cada vez mais, diante de sua vista.

O foco de luz, já bem forte e próximo deles, joga seu jato sobre todo o solo em que os dois se encontram e, num rápido volteio, afasta-se.

O foco da forte luz volteia na escuridão do céu e já vem aumentando, em direção deles.

Os dois entram na caverna. Observam que a luz passa por todo o solo coberto de folhas, ali, ao redor.

Eles ficam grudados às paredes da caverna, atentos a qualquer ruído, o que não acontece, porém.

Mulder afasta-se, para chegar à entrada.

Mas o ex-colega já está com metade do corpo para fora da grande gruta. Volta-se para olhar o agente e espanta-se: junto a ele, um homem está de pé, pernas afastadas. Em sua mão um bastão de metal.

O estranho ser, de boca e olhos deformados, volta-se, levando em sua direção o bastão.

Mulder pára. Tira do bolso algo que ergue na direção do outro. A arma alienígena que mantém em seu poder há muito tempo. Está certo de que, apresentando-a ao homem sem rosto, este saberá que Mulder é capaz de, com aquela arma, por fim à vida de um alienígena dos que querem conquistar a Terra, os quais esses sem rosto, os rebeles, desejam eliminar.

Doggett mantém-se estático, aguardando o desenrolar dos acontecimentos.

O homem sem rosto abaixa a arma que tem nas mãos. Seu corpo torna-se fosforescente. Transforma-se numa silhueta brilhante.

Mulder e Doggett observam, atentos, parados, cada um em seu lugar.

Aos poucos, a silhueta cintilante vai perdendo seu brilho e uma figura humana aparece. Normal. Com feições sem deformações.

Os olhos dos dois homens estão a observar o que pode vir em seguida.

Mulder, após esperar alguns segundos, decide perguntar:

Nesse mesmo momento, como num passe de mágica, mais três homens iguais ao primeiro aparecem e entram na gruta. Eles ficam parados.

Um som gutural, mas zunindo com a de um robô, sai da boca do homem que está diante de Mulder.

Doggett, que já havia se aproximado de Mulder, fala em voz baixa.

Este fica parado no lugar, mas ao mesmo tempo, faz brandir o bastão metálico que tem à mão, em sinal de defesa.

Mulder aproxima-se, mas também carregando voltado para o ar, a sua arma também alienígena.

Doggett e Mulder olham-se, mutuamente.

O alienígena continua fitando os dois homens, com semblante frio e feroz.

Num gesto súbito e brandindo o bastão metálico, faz dele sair um fogo consumidor que se estende pelo solo de pedra, espalhando-se por grande parte das paredes da gruta.

Os dois mergulham e nadam por baixo d'água, enquanto a tocha de fogo, agora lançada pelos outros três homens que haviam chegado, percorre a superfície da água corrente.

Mulder e Doggett mal conseguem livrar-se das chamas, pois a profundidade da água é de apenas dois metros. Mas continuam nadando.

Doggett sente que está com dificuldade de manter-se sem respirar ali, sob a água e a mesma está cada vez mais aquecida, já que os alienígenas mantém as chamas completamente voltadas para sobre sua superfície.

De olhos fechados e percebendo que seu corpo não está inteiramente imune ao ataque de fogo dos estranhos seres de outro planeta, ele continua esforçando-se o máximo possível para escapar desse perigo. Seus pulmões estão quase para explodir. Sem aguentar mais, deixa o rosto chegar à superfície para respirar. Consegue fazê-lo e abre os olhos e, para seu espanto, nota que já está bem distante dos atacantes e também que Mulder não mais se encontra ali.

Observa que está agora numa espécie de ilha, bem no centro da caverna. Ele coloca os pés no solo de pedras. Respira profundamente o mais que pode. Olha à sua volta. Tudo em silêncio. Não há sinais dos alienígenas. Nem de Mulder.

Agacha-se um pouco para distender os músculos das pernas.

"De repente ele pode ter conseguido ficar numa parte da margem do rio que corre aqui dentro. - pensa - Mas tenho que sair daqui."

Respira mais profundamente. Decide retornar de onde viera, através da estreita borda de pedra que vai beirando o manancial, agarrando-se nas reentrâncias da parede da caverna.

Doggett, consegue, a duras penas, escorregando nas rochas úmidas e lodentas, chegar à entrada da caverna.

Os dedos das mãos estão esfolados. Sangrando. Sente a pele do rosto e braços queimando e muito quente.

PARTE 24

Os quatro homens perseguindo Doggett e Mulder dentro d'água, continuam a lançar as chamas cada vez mais violentas, na sua força queimante.

Mulder, prendendo a respiração, prossegue na sua fuga incomum. Sente, no entanto, que não aguentará mais e logo será necessário encher os pulmões de ar, novamente.

Súbito, uma brusca descida no fundo do rio, o faz descobrir que um longo e escuro caminho, como um túnel o atrai, puxando-o para seu interior. Nesse momento, mesmo em grande terror, seu pensamento vai para Scully e William. Tem a impressão nítida que este será seu fim e nunca mais os verá.

Ele é sugado, violentamente, por esse lugar, mas no segundo seguinte encontra-se com a cabeça fora d'água e consegue respirar. Afogueadamente, agora, com os braços e rosto de volta à superfície, dá para sentir que sua pele dói horrivelmente, pelas queimaduras que sofrera.

"Mas onde estou? - pensa - Aqui neste ponto é o interior da caverna ou estou fora dela? O que é isso, afinal?"

Ele sai da água. Encharcado. Trêmulo. Sentindo dores pelo corpo. Respirando mal. Deixa-se cair no solo, dobrando os joelhos; inclina a cabeça para baixo. Com a respiração resfolegante, tenta reanimar o corpo. Após alguns segundos, permanece nessa posição.

Um rumor de algo se movendo, o faz virar-se para olhar e vê, estarrecido, que seus perseguidores ali estão, bem junto a ele, prontos para capturá-lo.

Mulder levanta-se, com dificuldade. A água escorre de suas roupas e as deixa pesadas e geladas, grudadas no seu corpo de pele queimada.

Desanimado, deixa cair os braços ao longo do corpo e olha para seus algozes.

PARTE 25

Doggett, no posto de saúde local, está deitado com os olhos fechados na maca onde o haviam colocado provisoriamente. Abre os olhos ao ouvir seu nome ser chamado, num murmúrio.

É Monica ao seu lado, apreensiva.

Dana está com ela.

Elas o olham, penalizadas. O corpo dele está coberto com um leve lençol. Em toda a superfície da pele há o brilho molhado do medicamente amarelo passado nas queimaduras.

Ele fecha os olhos, afirmando.

Doggett narra, abreviadamente, o ocorrido.

Dana, após segundos de verdadeiro desespero interior, retorna até o leito onde está o agente.

Dana já vai saindo, apressada.

Dana volta-se para olhá-la, apenas. Nada fala e sai, em passos rápidos.

Monica volta-se para seu colega.

A agente sai às pressas, deixando seu colega ferido.

Dana continua caminhando apressadamente. Em sua cabeça centenas de indagações preenchem seu cérebro cansado.

"Por que Mulder tinha que ir para aquele lugar? Teria escolhido de propósito, por ter ouvido falar? O que aconteceu com ele? Onde estará? Se algo ruim acontecer com ele, será que serei capaz de subsistir a tanta desgraça? E nosso filho?"

Ela pára, subitamente. Seu semblante está lívido.

Monica não responde. Fita-a, pesarosa.

Os soluços brotam da garganta da amiga.

Dana enxuga os olhos, dos quais as lágrimas escorrem e recomeça a caminhar.

PARTE 26

O rapaz pega a foto que Dana lhe apresenta; examina-a, com atenção.

O rapaz dá as orientações.

* * *

A dificuldade para chegar ao local onde Mulder estivera é demais para as duas mulheres. Em certas partes das estradas, o carro já desgastado pelo tempo de uso, trepida sob o chão desnivelado, de terra batida.

Monica observa, preocupada, em dado momento, que sua amiga não está bem.

O motorista, gentilmente, oferece-se para amenizar a situação.

O veículo pára. As duas mulheres saem.

Dana procurar respirar profundamente. O enjôo lhe está impossibilitando de prosseguir numa viagem normal.

* * *

Elas descem do carro.

Um ajuntamento de pessoas está, no momento, observando, curiosamente, o lugar.

Bombeiros haviam sido chamados, desde quando Doggett havia sido levado para o posto de saúde da localidade e estão fazendo o rescaldo no local.

Dana corre para onde encontra-se o grupo de pessoas e vê o que as está espantando, deveras.

Uma devastação de mato, pequenas árvores e até pequenos animais indefesos, jazem queimados no solo totalmente carbonizado.

Monica passa o braço ao redor dos ombros da amiga sofredora. Nada fala. Nem tem argumentos para isso. Está verdadeiramente desolada com o que vê e o que seu coração está pressentindo.

Pessoas entram e saem da caverna, abismadas com a estupidez do acontecimento.

A outra não ouve seus protestos. Enfia-se no meio das pessoas ali amontoadas e entra na gruta.

Sinais de queimados por todos os cantos da caverna. Tudo carbonizado nas paredes, no teto, nas margens do rio que corre, mansamente, ali dentro.

Dana, caminhando com desespero na alma, vai penetrando cada vez mais no local.

Com um seguro safanão, Dana desprende-se da outra. E não lhe responde. Deseja continuar.

"O Doggett disse que conseguiu sair, segurando-se pela margem do rio; vou tentar penetrar através desse meio e ver até onde vai dar."- pensa.

E prepara-se para, realmente, fazer o que pretende.

Os dois tentam impedir o gesto de Dana e embora Monica tenha arrancado dos pés os sapatos sem salto, de nada adiantara. O receio de cair na água, tendo que equilibrar-se na estreitíssima margem lodenta que ladeia todo o rio, a impede de prosseguir.

As pessoas fazem gestos para Dana, tentando fazê-la desistir do que pretende fazer, mas ela não lhes dá ouvidos. Continua segurando-se e tentando ir à frente, mesmo diante das dificuldades e dos ferimentos que logo seus dedos começam a sofrer, ao segurar-se nas pedras das paredes da caverna, embrenhando-se na escuridão que está diante de si.

O guia corre para fora da gruta.

Logo em seguida um bombeiro, munido de cordas, ganchos e outros equipamentos, entra na caverna, chamado pelo guia de turismo.

O soldado do fogo principia sua operação de salvamento.

Dana está continuando em sua difícultosa caminhada e vendo o bombeiro, grita.

A maioria das pessoas não entende, na verdade, o que ela está falando, mas em geral todos estão apreensivos com o desenrolar dos acontecimentos.

O bombeiro já está alcançando Dana e um outro já havia jogado um pequeno bote de borracha, seguro por um cabo de aço.

Seu rosto e braços já estão enegrecidos por estarem roçando sua pele nas paredes queimadas da gruta.

Monica está aflita por assistir a cena, sem nada poder fazer.

O guia dá esse aviso aos dois bombeiros.

Neste exato momento, Dana encontra, junto à margem do rio, um dos sapatos de Mulder. Ela o agarra, imediatamente. e chora, desesperada, reconhecendo que pertence mesmo a ele, após certificar-se que dentro do calçado está o selo com a marca americana do produto. Ela nem sabe mais o que fazer, quando sua visão alcança, mais adiante, o casaco que pertencera a Mulder, totalmente danificado pelo fogo. Abaixa-se para pegá-lo agarrado às pontas das pedras pontiagudas e lisas e, nesse seu gesto impensado, sua cabeça faz terríveis voltas, entontecendo-a; o enjôo retorna com força total; percebe, no seu quase entorpecimento, que uma escuridão total toma conta de seus olhos e sente-se como a flutuar numa vasta amplidão do nada. E ela perde o equilíbrio.

PARTE 27

Mulder olha para todos os lados, sem mover a cabeça. Procura uma saída daquela mortal cilada, porém não a está encontrando.

Os quatro alienígenas estão ali, diante dele, que sente-se impotente diante do poder altamente terrificante desses seres que o estão perseguindo.

Um dos seres aponta para a direção de Mulder o bastão metálico. Seus dedos já estão movendo o artefato para despejar o fogo mortífero sobre o ex-agente.

Diante do eminente perigo, Mulder brada:

PARTE 28

O bombeiro hábil e experiente no seu difícil labor diário, consegue segurar Dana justamente no momento em que ela vai cair na água, direcionando seu corpo para dentro do bote de borracha.

Ela desmaia.

O bote com o bombeiro e Dana é puxado pelo outro profissional, com perícia e garra.

Monica e o guia suspiram, aliviados.

Dana já vai ser colocada na maca de resgate, quando acorda de seu rápido entorpecimento.

Os bombeiros olham-na, sem entender suas palavras.

O guia de turismo antecipa-se para traduzir as palavras dela.

Os bombeiros fazem um sinal de que está tudo bem, então.

Monica fica ao lado da amiga, preocupada.

PARTE 28

Mulder vê, neste momento, acima de sua cabeça, um raio luminoso. Olha, espantado. Tenta reagir. Seus membros não se movem. Nervos e músculos tensos. Sente-se inteiramente paralisado. Seu corpo é içado no ar.

"Scully, minha vida, não acredito que possamos nos ver mais... meu filho..." - é o único pensamento que lhe ocorre neste momento de terror.

PARTE 29

No Mirante do Centro Geodésico, a vasta amplidão do céu é avistada. Na superfície plana as pessoas colocam-se, esperando aproveitar o máximo desse maravilhoso recanto privilegiado, que a natureza criou.

Muitos turistas, moradores apenas desfrutando do lugar ou casais de namorados passeando de mãos dadas, estão a essa hora da noite para apreciar a beleza e vastidão do aprazível lugar.

Dois jovens amigos conversam.

O outro observa, de olhos arregalados.

Neste momento, a correria no local é intensa.

Pais tomam nos braços seus filhos para correrem dali.

Alguns movimentam-se, cada um correndo numa direção, sem saber onde procurar um abrigo. Algumas pessoas, no entanto, permanecem estáticas, como que hipnotizadas, vendo as luzes que se movem no negror do céu, em rápidos movimentos para os lados e para a frente, quando uma delas vai se aproximando aos poucos do local.

Os assustados espectadores, apavorados e sem ação, assistem a nave pousar no solo. Vêem quando o quadrado fortemente luminoso da porta do OVNI se abre.

A silhueta escura de uma figura aparece, contrastando com a luminosidade do interior da nave.

Agora o terror faz com que aquelas pessoas saiam em desabalada carreira pelo extenso local. Gritos de pavor e pedidos de socorro fazem-se ouvir, demonstrando o medo que cada ser humano está passando nesse momento.

Os dois jovens amigos que conversavam momentos antes, haviam corrido, afobadamente, para um canto qualquer e se abrigaram sob um farto arbusto que, tendo seus galhos arreados no chão, sua grande quantidade de folhas serviu para cobrir os curiosos rapazes, que preferiram matar a curiosidade, escondendo-se ali, a fugir para mais distante, como os outros haviam feito.

O ser estranho que havia saído da nave desce a rampa da porta, que está pousada no solo.

A porta do OVNI é fechada, novamente. Em fração de segundos a nave alienígena segue para o espaço escuro do céu sem estrelas e afasta-se, num piscar de olhos.

Ao longe só dá para ser avistado um pequenino ponto luminoso, misturado a tantos outros.

PARTE 29

Mulder sente as pernas trôpegas. Já havia parado algum tempo, a fim de descansar, mas o seu corpo está debilitado pelas queimaduras e o desgaste físico.

Andara, nem sabe quantos quilômetros. Já não aguenta mais.

Dois carros já haviam passado por ele na precária e deserta estrada de terra, mas Mulder chega à conclusão de que ninguém, em sã consciência, daria carona a um sujeito como estava ele. Maltrapilho. Tal qual um mendigo.

Mulder deixa-se cair, inerte.

PARTE 30

Bombeiros, na ambulância de resgate, estão colocando o ex-agente na maca e esta dentro do veículo.

Rapidamente lhes colocam soro e vários medicamentos lhe são aplicados, injetados nos músculos e veias.

Dana assiste, desesperada, o resgate.

Ela recebe a notícia com certo alívio.

A ambulância vai transportando Mulder para o hospital, com Dana ao seu lado, aflita e preocupada.

Por vários minutos seguem pela dificultosa estrada de barro.

Enfim, chegam ao hospital. Encaminham o acidentado para um quarto. As enfermeiras começam os preparativos para a assepsia e medicação do paciente.

* * *

Dana passa os dedos sobre os cabelos de Mulder e o olha, com carinho.

Dana espanta-se.

PARTE 31

Quinze dias. Uma quinzena de agitação na Chapada dos Guimarães. O comentário incessante sobre o fato de que um OVNI havia deixado um alienígena no Mirante corria, sem cessar.

Mulder e Doggett, recém saídos do hospital, acompanhados de Dana e Monica, saem da pousada.

Dana apenas ouve os comentários, sem nada opinar.

Enquanto caminham, logo vêem o vendedor que havia estado a quilômetros da cidade, vendendo seu caldo de cana, agora instalado em uma banca mais bem cômoda, que também está repleta de plantas de todos os tipos.

E logo o vendedor os vê. Sorri e acena, chamando-os até ele.

Doggett sorri.

Mulder franze a testa.

"Então eles retornaram!" - pensa.

Doggett também demonstra preocupação.

O vendedor continua falando sem parar, narrando aos visitantes o que lhe haviam contado.

Mulder dá uma rápida olhada sobre seu próprio corpo.

Num repente, vem à sua mente a cena do que vira, naquele momento em que pusera seus pés no solo.

"Eu lembro que vi muitas pessoas correndo... ouvi gritos... mas jamais pensaria que fizessem de mim essa figura tão grotesca...!" - pensa, chateado.

Mulder aproxima-se de Dana, segura-lhe a mão e encaminha-a, rapidamente, para saírem do local.

Doggett fica sorrindo e Monica o refreando com o olhar.

Monica não resiste e dá um leve sorriso para o colega.

PARTE 32

PARTE 33

William corre, com suas perninhas ainda vacilantes, para os braços do pai, que o ampara.

William corre agora para a mãe, que o agarra com força, louca de saudade.

William sai, rápido. Andando com pressa nos seus passos ainda incertos, tropeça e cai.

William levanta-se, olha para os pais com ar de segurança e prossegue, indo para o outro recinto.

Maggie fica olhando, a sorrir, os pais de seu neto, aguardando o retorno do filho. Cruza os braços e também espera.

Logo William retorna. Nos braços um enorme brinquedo que quase nem deixa ver seu rosto por detrás do objeto de plástico multicolorido.

William, empolgado, coloca no chão o seu novo brinquedo, que, tendo um botão apertado sob seu dedinho esperto, fica no chão a girar... a girar...

Maggie, sorrindo, sem entender o desgosto dos dois, conta a história.

Ela se afasta. Vai para a geladeira. Bebe um pouco d'água.

Dana reflete, por alguns instantes, criando coragem para falar.

Ambas riem, divertidas com a idéia.

Mulder chega-se às duas com o filho no colo.

Elas continuam sorridentes.

Maggie olha para sua filha. Sente pena. Nem está em condições de fazer viagens e tem que continuar essa vida de aventuras sem fim. Vê que Mulder chega até Dana e, com o braço em volta de sua cintura, encaminha-a para o outro aposento, com o filho no outro braço.

Maggie acha maravilhoso poder ver a filha tão amada por esse homem que conheceu há dez anos atrás.

"Como poderiam ter sido mais felizes desde que se conheceram, se tivessem aproveitado mais o tempo! Mas acho até que foi mais bonito e proveitoso assim. Passaram a conhecer-se profundamente. Sabem o gosto um do outro, aprenderam as manias e idéias de cada um... e prosseguiram se amando em silêncio por anos a fio. O Fox é um homem de caráter firme, íntegro, honesto, de sentimentos puros. Minha filha é feliz, eu sei."

Sorri, pensando consigo mesma, se vier uma menina para completar a família.

PARTE 34

William se joga sobre a cama, andando de joelhos sobre o colchão. Levanta-se e começa a pular. Dá risadas de contentamento.

Ele pára e faz beicinho. Chega até a beira da cama, andando para trás. O próximo passo é dado fora do colchão. A queda é inevitável. O choro logo vem.

Mulder pega-o e o aninha no colo, para acalmá-lo.

Minutos depois, os olhinhos de William já demonstram cansaço das travessuras do dia. E ele dorme.

Mulder o leva para o quarto da avó.

Logo retorna para onde está Dana. Fecha a porta. joga-se na cama, com força.

Dana escova os cabelos em frente a um espelho que está sobre uma cômoda.

Dana larga a escova sobre o móvel e joga-se na cama ao lado dele.

Ele a acaricia. Fica sério.

Ele, com dedos tateantes e macios vai fazendo-os penetrar no decote do robe dela. Sente-lhe a carne tépida e fremente.

Ele, com a boca, vai explorando todo corpo da mulher amada.

Ele nem responde e vai acariciando-a com os lábios ávidos.

Com sutileza, vai fazendo com que ela sinta-se excitada e arfante.

E logo, os dois estão sob o incontrolável poder do amor.

PARTE 35

Um dia ensolarado. Temperatura quente sobre a cidade. O vento que sopra ondula as águas azuis na praia que faz desmanchar seu colar de espuma na areia branca e faz balançar as folhas das palmeiras que adornam a praia.

O agente nota o amigo tão lacônico e o olha, atentamente.

O outro aperta os olhos; apoia os cotovelos nos joelhos, olhando para o mar diante de seus olhos.

Mulder esboça um sorriso forçado.

Doggett tenta desviar o assunto pesado.

Mulder olha o relógio de pulso.

Mulder toma o táxi, mostrando ao motorista o cartão do hotel em que encontra-se hospedado. Dessa maneira o taxista poder ler o nome da rua para a qual precisa levar o seu passageiro.

Mulder fica a observar as ruas pelas quais o táxi vai passando. Seus pensamentos estão confusos, pois a sua mente trabalha sem cessar, procurando achar uma solução para a grande virada que havia interrompido seus tempos de paz.

Ele observa, com atenção, e agradável sensação de bem estar, todo o trajeto em torno da praia repleta de banhistas. Chama-lhe a atenção a quantidade grande das mulheres, jovens ou não, usando mínimos trajes de banho.

Atrai também a sua vista os desenhos na calçada a perder de vista, trabalhados em pedra portuguesa preto e branco.

Logo encontra-se diante do hotel. Paga ao taxista e desce do veículo.

* * *

Mulder dirige um olhar intrigado para a sogra. Não está entendendo porque ela lhe parece tão entusiasmada. Dirige-se para o outro ambiente.

Dana está sentada no chão, colocando peças de roupa de uma maleta para outra.

Ele agacha-se, para ficar junto dela. Dirige-lhe a palavra com voz meiga, que faz com as bolinhas de gude deslizem por sua garganta.

Ele a fita, fixamente, com seu olhar esquadrinhador.

Os incríveis olhos azuis de Dana o fitam, ardentemente. Ela torna-se séria. Encara o olhar dele. Seus olhos, porém, começam a ficar marejados.

Mulder levanta-se, erguendo-a do chão.

Ela retira o rosto que estava encostado no peito dele.

Mulder vê, então, que, enquanto chora, seus lábios distendem-se num sorriso.

Mulder observa-a, estático. Nem entende as palavras dela, de pronto. Seus lábios se entreabrem, surpreso.

Ela afasta-se dele e senta-se na beira da cama. Tapa o rosto com as mãos.

Ele vai, célere, para junto dela.

Ela levanta os olhos para ele.

Ele a abraça fortemente.

Permanecem calados. Nas mentes e corações dos dois um dilema muito forte: mais um membro da família vai chegar e sentem-se completamente inseguros quanto a seu futuro.

Passados alguns momentos, ele fala, em voz carinhosa.

Neste momento William, com uma fruta na mão, chega até junto dos pais. Segura-a bem à frente dos olhos de ambos.

Maggie chega até a porta do quarto, para buscar o neto.

Mas detém seus passos.

É lindo o quadro que vê neste momento.

Dana e Mulder abraçados e William no colo do pai.

Maggie sente na garganta um aperto de emoção.

E pensa, com seus botões, que, embora seu filha tenha uma vida atribulada e insegura, pode considerar-se muito feliz com essa família de três membros, que em breve serão quatro.

"Que é uma família, se não o

mais admirável dos governos?"

Lacordaire

 

 

 

FIM