NÁO PODE SER LOUCURA!

 

 

“O primeiro degrau da loucura é

julgar-se sábio.”

Rojas

 

 

Capítulo 221

 

 

No escritório confortável, o casal está sentado, aguardando para ser atendido pelos principais membros da equipe de produção.

-         Mulder, eu não sei se serei capaz de desempenhar algum papel e você?

-         Scully... eu vou lhe dizer o certo: acho que, nessas alturas dos acontecimentos, sou capaz de tudo!

-         Não estamos morrendo de fome, Mulder!

-         Sim, mas a família está aumentando, Scully e temos que preparar um bom pé de meia.

Ela levanta as sobrancelhas.

-         Mulder... também não sabemos quanto tempo duram as filmagens ... e a minha gravidez vai aparecer e ...

-         É bem um caso a pensar ... mas vamos ver, vamos ver.

Ela o olha, admirada.

-         Nunca o vi tão decidido a fazer uma coisa tão fora da sua rotina...!

-         Senhores!

O som da voz enche o ambiente.

Dois homens entram na sala e um deles saúda o casal.

-         Incrível!! – é o que exclamam, ao mesmo tempo, estacando os passos.

Mulder levanta-se para receber os cumprimentos.

Os homens estão estáticos diante do casal.

-         Eu não lhes falei? – diz Beck, que havia encontrado Mulder e Dana no restaurante e acabara de chegar ali.

Um dos homens estende a mão para Dana.

-         Chris Carter, ao seu dispor. – fala, quase sem voz.

-         Dana Scully. – fala ela, por sua vez

Nenhum som é ouvido a partir deste momento. Não. Porque os três homens que haviam se aproximado do casal parecem estar em transe.

Boquiabertos. Mudos. Estáticos. Empalidecidos. Trêmulos.

Passada a surpresa pela reação dos três homens, Dana decide falar:

-         Mas, afinal... o que houve com eles, Mulder?

A mais esta frase inédita aos ouvidos dos homens, Chris Carter abre mais a boca, apontando com o dedo indicador em riste, para a direção do ex-agente.

-         E você é ... Mulder?! – ele consegue murmurar com dificuldade, em voz trêmula.

-         Fox William Mulder. -  ele fala, estendendo a mão para Carter.

Os três embaraçados homens desabam, como sacos de batatas, sobre um grande sofá, que está junto ãs suas costas.

-         Não! – fala Manners – Eu não estou ficando ... louco! Não pode ser loucura...! – resmunga.

Dana levanta-se.

-         Mulder, já cansei dessa palhaçada! Vamos embora! – fala decidida.

-         Não! Por favor! – Carter pede, levantando-se – Eu até entendo vocês; talvez conheçam o seriado de alguma forma e tomaram seus nomes para si.

-         Tomamos nomes de personagens de TV?! – diz Dana – Que espécie de coisa sem racionalidade é essa que está falando, senhor?

-         Calma, Scully, vamos ver do que se trata. – Mulder procura convence-la.

Os homens, sentados, com cara de estupefação, observam a cena que para eles é incrível.

-         Você... a chama ... Scully ... como no seriado? – balbucia Carter.

-         No seriado?! – fala Mulder – Eu sempre tratei minha mulher assim!

-         Sua ... mulher?

-         É verdade. Somos casados.

Carter e Manners olham, assombrados, para o casal.

-         A única diferença que está existindo é que ela está com o cabelo ruivo de tempos atrás e a verdadeira atriz é loura, de cabelos longos. – quer convencer-se Manners a si mesmo.

Mulder, andando pela sala, passa um dedo sob o nariz. Resolve mudar a conversa.

-         Ainal, vocês nos trouxeram aqui com um propósito.

-         S... sim! É verdade! – diz Beck – Explique a eles, Chris!

Carter passa a mão com força sobre os olhos e sacode a cabeça.

-         Eu ... eu quero explicar que ... – pára e fica a admirar o casal diante de si - ... como os nossos atores estão fazendo trabalhos fora do País e nós resolvemos fazer um filme longa da série que exibíamos na TV, achamos que vocês... vocês ... sáo re-al-men-te os mais perfeitos dublês que já vimos na face da terra! Em vista disso, e com sua aceitação,poderemos iniciar o filme com cenas em que eles não têm necessidade de aparecer  E além do mais, não haverá problemas com takes tomados somente de costas, porque vocês são perfeitos para os papeis. A semelhança é demais! Podem, tranqüilamente, fazer cenas até de frente de rosto, em qualquer ângulo! Sen-sa ci o nal!  - conclui, como que extasiado com o que vê à sua frente.

Ele para de falar essas palavras e continua pasmo, fitando-os.

Manners o acompanha na sua proposta.

-         É verdade. Queremos propor-lhes uma boa soma em dinheiro nesses papéis. O que acham? – fala isso e também queda-se a admirar a semelhança do casal com os atores já citados.

-         Nós não sabemos nada de como representar! – explica Dana.

-         Vocês terão aulas de representação. Não se preocupem quanto a isso. – explica Manners.

-         Não ... não sei se devemos ... – diz Mulder.

-         Por que não? O que os impede? – pergunta Carter.

A nossa situação, porque trabalhamos muito tempo para o Governo e ...

-         Sim... ? Isso não significa nada, se são afastados de seus cargos.

-         Afastados ...? Bem ... -  tenta explicar Mulder – ... nós éramos  Agentes Federais, mas ...

-         Como?!

Esta exclamação somente foi feita por Mat Beck, porque o diretor e o roteirista  estavam completamente com ar abobalhado. Sem ação. Em silêncio.

Dana senta-se e coloca as duas mãos sobre as faces.

-         Chega, senhor Carter. Não dá mais. A cada vez que falamos algo, o senhor fica paralizado, como se fossemos seres sobrenaturais! – ela reclama.

-         Bem, senhores... – Mulder faz menção de retirar-se – Vamos, Scully.

Os três aparvalhados homens, de sopetão, aproximam-se para impedi-los de sair.

-         Não! Fiquem! Por favor! Atendam ao nosso pedido! – pede Carter.

Beck chega bem perto de cada um; toca-lhes nos braços, com ar incrédulo.

-         O que significa isso? – quer saber Dana.

-         Desculpe-me, estou constatando se é ...

-         ... real? Claro que somos! – ela completa, zangada.

Carter deixa-se cair, absorto, olhando para o nada, falando só para si:

-         E eu que não acreditava ... eu que não queria crer que o sobrenatural existe ... aí estão diante de mim ...

-         O que você está falando, Carter? – pergunta Manners.

-         ... as minhas criações... os personagens que eu próprio criei na minha imaginação ...! – murmura, atônito.

-         Que sobrenatural, que nada, cara! – fala baixo para ele -  Esses dois usam os nomes que viram na TV ou em revistas e estão aí, fazendo média com a nossa cara!

Carter o repreende, também em voz baixa:

-         Veja, Manners, são eles, eles dois, exatamente! Não são Gillian e David! Não está vendo?

-         Claro que sim! Mas é porque são idênticos ou quem sabe uma plástica muito bem realizada...  - replica Manners, agitado – E olha, esses aí são casados! Esqueceu? Casados! Os seus personagens não eram!

Carter levanta-se. Não quer mais ouvir as palavras cépticas do outro. Aproxima-se do casal, que, neste momento, está conversando com Mat Beck.

Dirige-se a Mulder.

-         Você disse que são casados ... – inicia ele.

-         Sim, somos.

-         E temos um filho.  – diz Dana, por sua vez.

Carter levanta uma mão, agitadamente. Nervoso.

-         Não! Não diga o nome! Deixe que eu o diga!

O casal abre os olhos, estupefato com a ansiedade do outro.

-         É... William ... não é? - estas duas últimas palavras ele fala quase inaudível, com medo de ouvir a resposta.

-         Como sabe? – pergunta Dana.

 Nesse preciso momento, Manners, Carter e Beck permanecem, mais uma vez, como três seres levados à estupefação total pelas respostas obtidas.

Manners apóia-se na mesa.

Beck deixa cair o queixo e, com ar de quem não está entendendo nada, senta-se, vagarosamente, numa cadeira.

Carter, talvez o mais sensível e atingido pelo terrível baque provocado pela fantástica surpresa, sente que seu coração está disparado. Põe a mão no peito. O ar custa a lhe entrar nos pulmões. Está nervoso ao extremo. Seus olhos, de arregalados, vão fechando-se  aos poucos e ele segura-se, para não cair no chão.

Mulder e Dana, que continuavam a prestar atenção nas estranhas reações dos trës homens, tomados de surpresa com a cena que vêem, levantam-se, rapidamente, na direção de Carter, cuja palidez chama-lhe a atenção.

-         O que sente? – pergunta Mulder – Está passando mal? – segura-o, firmemente.

-         Eu ... acho que sim ... – balbucia Carter.

Dana o segura pelo outro braço e o encaminham para o sofá, fazendo-o deitar-se. Afrouxa-lhe a gravata, abre-lhe a camisa, toma-lhe o pulso, contando suas pulsações no  seu relógio.

-         Eu ... preciso ... – queixa-se Carter, com os olhos fixados na figura atenta de Dana cuidadosa com o seu mal súbito; não perde uma só palavra do que ela está dizendo:

-         Isso está me parecendo uma reação psíquica, proveniente de uma emoção muito forte, que causa essa reação orgânica, como o aumento dos batimentos cardíacos e os tremores que apresenta este homem ...   

-         Eu ... estou ... – murmura Carter, ainda fitando-a, entre embevecido e ao mesmo tempo angustiado.

-         Calma, - fala Mulder – a Scully é médica.

-         Médica??!!

A exclamação  em tom de total surpresa, fora dita pelos três homens, de uma só vez.

E com essa afirmativa, os olhos de Carter giram nas órbitas e ele desmaia.

 

“Deus pôs a verdade nos nossos ouvidos

e o erro nos nossos olhos.”

Voltaire