MUITAS CRENÇAS

 

 

“Se analisássemos  muito  de  perto   os

princípios,  jamais poderíamos ter crenças.”

Anatole France

 

Capítulo 223

 

Dana olha-o, sem entender o sentido de suas palavras.

-         Mulder, fala! O que você quer me dizer?

Ele suspira. Aperta os lábios. Murmura, somente.

-         Nós atravessamos uma dimensão do tempo.

-         O quê??!! – ela afasta-se e cruza os braços – Ah, Mulder, eu já o segui em muitas e muitas crenças, mas essa agora...

-         Então como você me explica isso, hein? Como?

-         Ora, esses homens são parte de uma equipe de cinema; criaturas que criam mirabolantes e irracionais situações...

-         Pára, Scully! – ele sussurra, segurando-a – Nós fomos criados por eles!

-         Mulder... – ela vai protestar.

Ele coloca os dedos em seus lábios, impedindo-a de falar.

Vai até a mesa e pega os papéis ali espalhados.

-         Vem cá, Scully. Olha. Nestas fichas estão todos os nossos dados. Nascimento, filiação, naturalidade, identidade... leia aqui...

Nome completo – Fox William Mulder

Estatura - 1,82m

Cabelos - Castanhos

            Peso 77 kg

            Olhos Verdes

            Tipo de Sangue A-B negativo

            Apelido – Spooky

            Nascimento – 13 de outubro/61

            Lugar Nascimento – 2790 Vina St., Chilmark, Massachusetts

            Residência atual – 2360 Hegal Place, ap. 42, Alexandria, Virginia

            Telefone – (202)l – 555-0199

            E-mail – trustno1@mail.com

            Estado Civil – solteiro

            Filhos – 1 –  William – A princípio o Agente Mulder foi o doador para o método de fertilização IV – In Vitro – para a Agente Scully que é a mãe.

            Pai substituto – William Bill Mulder, do Departamento de Estado. Assassinado por Alex Krycek             em abril de 95.

            Mãe – West Tisbury, Martha’s de Vineyard, Massachusetts

            Pai biológico – C.G.B. Spender (O Canceroso).

            Mãe – Teena Mulder, falecida em Greenwich, Connecticut.

Irmãos – Irmã, Samantha Ann Mulder, nascida em 22.01.73. Por ser filho de CGB Spender, o   agente Jeffrey Spender é seu irmão.

            Estudo – Formado em Psicologia, Universidade Oxford/1982.

               Academia de adestramento do FBI – de Quântico/1984

            Publicações – Sobre Assassinos Múltiplos e o Oculto (monografia) Artigo (como M.F.Luder) na  revista OMNI - 1993

 

            Categoria – Agente Especial

            N-º  22791

            N-º Identificação – JTT047101111

            Arma             - Começou usando Taurus 92 calibre 9mm. Depois Glock 19 – Sig Sauers 226 – Smith e Wesson 1056 calibre 9mm Sig Sauers P228 Walter PPK

            Característica – É daltônico. Verruga na face direita.

            N-º de Credencial – JTT0471011

Mulder continua mostrando e lendo junto com Dana o que se segue:

            Nome completo – Dana Katherine Scully

            Estatura -             1,60

            Peso – Desconhecido

            Cabelo – Ruivo

            Olhos – Azuis

            Apelido – Starbuck

            Data Nascimento – 23 de fevereiro/1964

            Lugar nascimento – Desconhecido

            Endereço atual – 3170 W 53 Road n-º 35 – Annapolis, Maryland, San Diego, Califórnia

            Telefone – (202)  555-6431

            Celular – (202) 555-3364  (202) 555-3564  (202) 555-0113  (202) 555-0166

            E-mail - D_Scully@fbi.gov       queequag0925@hotmail.com

            Estado civil – Solteira

            Filhos – Emily – falecida em 1997

`           Pai – William Scully, capitáo da Marinha dos Estados Unidos, faleceu em dezembro 1993

            Mãe – Margareth Maggie Scully

            Irmáos – William Bill Jr. Scully, Melissa Scully falecida abril/95 e Charles Scully

            Estudo – Formada em Ciências Físicas Universidade de Maryland, 1986, especializada em patologia forense

            Publicação _ Tese O Paradoxo de Einstein – em uma nova interpretação.

            Categoria – Agente Especial

            N-º  - 2317-616

            N-º Identificação – JTT 0331613

            Armas Bernardelli 7.65  Walter PPK 7.65,  Smith & Wesson 1056 calibre 9mm, Sig Sauer P228.

            Vacinação – Certificado de vacinação n-º 29510

            N-º A-X – Na abdução por Duanne Barry 73317

Ambos param, respirando profundamente.

-         Mulder... mas eles podem ter esses nossos dados!

-         Não diga tolices, Scully! Não acredito que seu cepticistmo  chegue a esse ponto! Jamais um Órgão tão sério do Governo faria isso a uma equipe de TV ou cinema! Não está vendo que é impossível? Ainda tem mais outra coisa!

-         O quê?

-         Quem, além de sua família, saberia de seu apelido... Starbuck... quem? 

Dana permanece calada, meditando. Dentro de si não está aceitando as idéias de Mulder. Resolve perguntar em seguida.

-         O que você quer dizer é que viemos de outra dimensão? – ela o fita, estendendo o pescoço para a frente, levantando as sobrancelhas, aguardando a fantástica resposta.

-         Exatamente isso, Scully!

-         Mas esse mundo em que estamos não é o mesmo que nos viu nascer, crescer, trabalhar...?

-         É como se fosse o mesmo. Tem semelhanças...

-         Não poder ser nada disso! Não acredito nisso!

-         Sabe os dois atores que estão fora do País? Eles viveram nossas personalidades!

-         Ah, chega, Mulder! Que coisa mais sem graça pra me falar!

Ele aperta os lábios, fazendo um bico. Sabe que suas deduções estão corretas.

 

Carter, Manners e Beck, na sala contígua trocam idéias entre si.

Carter, visivelmente perturbado e abatido, está com a cabeça entre as mãos.

-         E agora, Carter? – Manner faz a pergunta

-         É exatamente o que lhe falei.

-         Está certo disso?

-         Duvida? Você tem outra explicação para o que está ocorrendo?

-         Já nem sei o que dizer.

-         Eu proponho a vocês uma coisa. – fala Carter.

-         O quê?

-         Guardemos esse assunto só entre nós.

-         É claro que tem que ser assim! – confirma Manners.

-         Mas... mas e os outros atores? E o resto da produção, equipe...? – pergunta Beck – E se... Gillian e David aparecerem?

Carter põe-se de pé.

-         Não vamos pensar em complicações, agora. Já chega a realidade que estamos vivendo... atormentadora e ao mesmo tempo... fascinante...!

Os outros dois concordam, com um meneio.

 

Mulder passeia pela sala, de braços para trás, as mãos nervosas, entrelaçadas.

-         Mulder, eu não vou aceitar isso...! Não entra na minha cabeça tal idéia! – murmura Dana – Por mais que eu queira acreditar... não dá!

-         Não é uma idéia, Scully! É a dura e fantástica realidade! Só não me pergunte como aconteceu... talvez tenhamos entrado num portal que nos trouxe a este lugar, essa vivência... eu sei lá como definir!

Neste momento os três homens retornam à sala.

Carter pigarreia. Um tanto tímido. Nervoso. Sente-se, no entanto, estranhamento feliz pelo acontecimento, já que pode ter diante de si os próprios personagens que criou com o maior carinho.

Dana, que estava de pé, andando ao lado de Mulder, senta-se lentamente, ao ver os homens entrando.

Mulder, porém, permanece onde está.

-         Bem... – começa Manners, envolvendo as mãos uma na outra – Tudo já acertado, vamos fazer o trabalho, não é? Estão de acordo?

-         E quanto tempo levarão as filmagens? Quer saber Mulder.

-         Faremos o mais rápido possível. É nossa intenção trabalhar intensamente nesse longa. Estão dispostos?

-         Bem, sendo assim, podemos começar, sem problemas.

Mulder e Dana olham-se, mutuamente.

Carter, mais que os outros, observa, atento, esse olhar dos dois. Mais do que nunca sabe que sempre houve entre o casal essa cumplicidade que é externada até num simples olhar.

 

Nos estúdios onde estão os guarda-roupas com as vestimentas adequadas para as filmagens, a mulher ajuda Dana a escolher uma das roupas.

Havia entrado esbaforida no recinto.

-         Desculpe, senhorita Anderson, mas é que eu havia sido chamado pelo Diretor, por isso me

atrasei.

Dana levanta as sobrancelhas, ouvindo-a a pedir desculpas.

-         A ... Anderson...? – indaga ela à mulher.

Porém esta nem parece ouvir a pergunta. Vasculha com mãos hábeis as roupas penduradas.

-         Olhe, está aqui. Limpinho e passadinho como você sempre exigiu! – ela fala, retirando e colocando à frente de Dana o cabide com a roupa.

-         Obrigada. – diz ela, quase sem voz.

Dirige-se ao camarim, para arrumar-se. Veste a roupa. Coloca-se diante do espelho.

-         Mas é exatamente o meu uniforme do FBI!! – surpreende-se – Agora só falta ver se o Mulder...

Neste instante ela sai dali. Quer conferir, com seus próprios olhos, o que está pensando.

Caminha pelos corredores. E, por onde passa, diversas pessoas a cumprimentam com simpatia e familiaridade.

Num certo momento, alguém barra seus passos.

-         Gillian! Nossa! Pensei que vocês iam nos deixar na mão!

Ela, sem entender de pronto, permanece por segundos estática. Logo percebe que todos os funcionários, as pessoas que circulam pelos estúdios, a estão confundindo com a atriz. Resolve dar atenção.

-         Por que diz isso? – pergunta, então.

-         Porque o roteiro do filme está prontíssimo, tudo já acertado com a Fox e vocês sumidos, caramba!

-         Ahn... – é só que ela consegue expressar.

Afasta-se, em seguida, sob o olhar atônito do homem, que nota uma grande mudança nas atitudes da atriz. Nota-a série e ponderada ao extremo, o que não é de seu feitio.

Dana continua a caminhar apressada. Logo chega ao local onde encontra-se Mulder.

Ele dá um largo sorriso ao vê-la entrar.

-         Oi, Scully!

O cabeleireiro que o está penteando sorri também ao vê-la chegar.

-         Mulder, vim só para conferir se, realmente, você está... – ela cessa de falar; ali está o seu Mulder; da mesma forma como sempre se vestiu dentro do FBI; seu impecável paletó, porém a gravata...- Sim! – recomeça ela – Está do mesmo jeito de sempre! Desajustada no colarinho!  - e dizendo isso, começa a apertar o nó da gravata dele, deixando-a ajustada na gola da camisa.

O rapaz, arrumando o cabelo de Mulder acha engraçado.

-         Agora vai passar a arruma-lo, então? – pergunta ele.

Ela lança um olhar para Mulder. Este a faz entender também com o olhar que deve aceitar certas estranhas frases.

Dana aproxima-se. Mulder está sentado. Ela chega bem perto de seus lábios e o beija, segurando-lhe o queixo.

O cabeleireiro fica sem graça. De pronto não entende o porquê de tanta intimidade.

 

A movimentação no set de filmagens é grande. Gente e maquinaria ocupam o grande espaço do estúdio.

As câmeras no momento estão sobre Mulder e Dana.

Eles estão num diálogo, junto ao seu Diretor Skinner.

Em dado momento Dana erra o texto. O nervoso torna-se mais forte que o embaraço de errar, que muito significa para ela e, então, desata a rir.

-         Não estou conseguindo...! – queixa-se entre risos, encostando a cabeça no ombro de Mulder, que a afaga, docemente.

Ele também dá risadas com a situação.

Recomeçam tudo, novamente.

-         Mulder, eu não sei se vou acertar! – ela fala, ainda sorrindo.

-         Claro que vai, Scully! – e dá-lhe um beijo em seus lábios entreabertos.

Dois funcionários da equipe voltam o rosto para o lado, incomodados com a cena.

-         Caramba! – diz um deles – Mas que intimidade! Os atores estão pior do que antes, não acha?

-         Concordo contigo. Mas vou te dizer. Pode passar o tempo que for, eles sempre estarão assim. – diminui o tom da voz – Não tem jeito. Eles se amam!

-         Mas ele é casado!

O outro só puxa os lábios para um lado, num trejeito de sorriso.

Recomeçam as gravações.

Na cena Mulder está agora numa cama de hospital, ferido, quase à morte.

-         Scully... – ele murmura, fracamente.

-         Mulder, estou aqui.

E Dana olha para as mãos dele e coloca-as sobre seu peito, apertando-as entre os seios.

-         Ei! Vocês dois! Calma aí! Isto não está no script!

Dana parece não ouvir os protestos. Passa a mão de leve no rosto dele. Seus olhos enchem-se de lágrimas.

-         Mulder... – ela chama, baixinho.

-         O que é, Scully? – ele responde, ofegante, ainda fazendo o personagem tão ferido.

-         Eu não gosto de vê-lo desse jeito. Parece verdadeiro e me faz mal. Dá a impressão de que...

-         Ei! – grita, novamente, o diretor – O que é isso? Sigam o texto, gente!

Mulder não resiste. Seu semblante abatido transforma-se e ele começa a rir dos “foras” de Dana.

Ela deita-se sobre ele e, rindo também, deixa-se beijar, ardorosamente por ele, que a mantém com o corpo sobre o seu tórax.

-         Corta!! – berra o diretor.

Dana recupera seu fôlego e tenta refazer o cabelo, ajeitando-o

-         Desculpe, senhor Manners. Nós lhe avisamos que não somos atores... – fala Mulder.

-         Sei, sei...! – ele fala, chateado.

Carter aproxima-se, gentil e deslumbrado por ver o casal assim.

-         Por favor, Mulder... Scully... tentem recuperar a cena. Estava indo tudo muito bem!

-         Ok, ok. – diz Mulder, afagando o braço de Dana – Nós faremos o melhor possível, não é, lindinha?

-         Hum, hum. – ela concorda.

-         Pois vamos lá! – comanda agora o diretor, confiante.

-         Cena! Atenção! Gravando!

Em cena Mulder vai no encalço do homem que atravessa uma cerca de arame farpado, agachando-se o máximo, passando por baixo da mesma, como o outro havia feito.

Continuam correndo por uma pradaria.

Mulder consegue alcançar o perseguido, segurando-o por uma manga, que a esse puxão rasga-se, mas basta isso para deter os seus passos. Com sua destreza, o Agente derruba o homem diante de si, ameaçando-o com sua pistola.

O homem cai em cheio sobre o solo.

-         Corta!

Mulder, com as pernas afastadas, meio cansado pela ação da cena, passa a mão nos cabelos e joga a cabeça para trás, respirando fundo.

O diretor, após segundos, chega mais perto do ator caído.

-         Tudo bem, Croft. Pode levantar agora.

 

“A ação é só o pensamento condensado,

concreto, obscuro, inconsciente.”

Amiel