MENTIRAS

"A mentira, senhora do mundo, é habil e

astuta; mascara-se com a hipocrisia,

enfeita-se toda de ilusões e vence."

Coelho Neto

Capítulo 31

Tarde fria e enregelante. Garoa gelada caindo sobre todas as coisas. Ruas solitárias. Poucas pessoas atrevem-se a percorrê-las; somente as que, por obrigação, sentem-se impelidas a caminhar nesse tempo tão ruim.

E, neste momento, há um casal movido à determinante missão de andar pelas ruas inóspitas da cidade de Washington, dirigindo-se ao trabalho.

Ele dá uma risadinha sem graça:

Ela lhe estende a outra mão, retirando-a do bolso.

Ele segura-lhe o braço para ajudá-la a caminhar mais rápido.

Ainda está distante para ser avistado o prédio do Quartel General do FBI. Faltam ainda algumas centenas de metros para percorrerem.

O sinal vermelho numa esquina impede-os de atravessarem a larga rua, agora. Aguardam, impacientes.

Ele, num gesto rápido, abre seu longo sobretudo, abraça Scully, apertando-a contra si, agasalhando-a então juntamente com seu próprio corpo, enquanto ela ri do modo engraçado que ele arranjara para mantê-la aquecida.

Ambos unidos, estão de frente um com o outro, corpos encostados, sentindo as respectivas quenturas de suas carnes dentro de uma mesma roupa quente, de grossa lã.

Scully continua rindo.

Falam com os rostos muito próximos por estarem ainda unidos dentro do mesmo agasalho.

Mulder não fala nada. Continua rindo ainda, com cinismo e apertando Scully, para que fique com o corpo colado ao seu e possa ela sentir o desejo a revelar-se entumescidamente sob as grossas roupas que veste.

Um homem de idade passa neste momento e vendo o casal à sua frente, ergue o olhar para a frente, talvez querendo demonstrar assim sua discordância pela inusitada cena que vê diante de seus olhos.

Passa por eles, balançando a cabeça, negativamente, em sinal de reprovação.

Se Mulder e Scully deram-se conta de que alguém por ali estava passando e os censurando? De jeito algum! Neste momento só existem eles dois, ali nessa calçada. Todo o resto do mundo está em segundo plano para eles.

O sinal verde aparece no semáforo, para que os transeuntes possam atravessar a rua.

Mulder levanta as sobrancelhas, lembrando:

- É... hoje tenho que fazer uma faxina no meu apartamento...

A busina estridente de um carro faz-se ouvir, chamando a atenção de alguém desatencioso no trânsito.

* * * * * *

Sendo uma sexta-feira torna-se um final de dia de trabalho propício ao entusiasmo do pessoal que trabalha no Bureau.

Scully já está aproximando-se dos dois.

Sue faz um ar brejeiro para Mulder.

Mulder balança a cabeça, anuindo.

Scully apenas ouve as palavras de Sue, mas procura manter-se bem desligada das ditas informações.

- Sabe, Dana, - continua Sue - na maior parte das festas de despedida de solteiro, somente

comparecem os homens casadouros, mas nessa vão mulheres! Pode?!

Mulder fica desajeitadamente indeciso numa resposta.

Dana cruza os braços, na espera das palavras dele.

Fita Scully num olhar disfarçado, observando sua reação.

Ela somente levanta as sobrancelhas; respira fundo.

Sinceramente, fôra para ela um alívio a resposta clara de seu amado.

"Mas será que ele faria isso mesmo?" - bate-lhe fundo um pensamento, vindo do coração.

Ele dá nela um furtivo beijo na face.

- ... casa! - diz, convicto.

Abre a porta da sala e deixa Scully entrar, acompanhando-a em seguida.

Imediatamente Dana liga o computador para digitar suas informações sobre a investigação realizada no decorrer do dia.

Mulder dirige-se ao arquivo de aço, puxando-lhe uma gaveta para nela retirar algumas pastas. Coloca nelas alguns papéis.

Soa na sala a chamada do telefone.

Ele atende.

Dana dá uma olhada em sua direção. Pela fisionomia que Mulder demonstra neste momento, ela pode perceber que está aborrecido com alguma notícia.

Após alguns minutos ele bate o telefone, colocando a mão na testa, pensativo.

Ele levanta-se. Aproxima-se dela.

Mulder não pensa um segundo a mais, sequer. Com gestos impetuosos, e no seu jeito decidido de ser, como lhe é habitual, dirige-se para a porta. Gira a chave na fechadura, trancando-a

Scully vê o seu gesto repentino e não entende.

Mal ela tem tempo para protestar. Já está envolvida nos braços dele, num inesperado e quente abraço.

Ele procura-lhe a boca; ela o recebe com a sofreguidão que sente dentro do seu ser.

Beijam-se intensamente. Parecem querer devorar-se mutuamente, na intensidade daquele ato de amor.

Foram muitos anos de tensão, espera, sofrimento, ansiedade. Agora já não podem guardar os desejos que impulsionam-lhes a se amarem o máximo de tempo de que dispõe nesta vida terrena.

Após o beijo, afogueados, ela repousa a cabeça sobre o peito dele.

Espera alguns segundos para que Dana recoloque-se frente ao computador.

Mulder aperta os lábios, um pouco preocupado, passa os dedos sobre eles.

Dirige-se à porta, para abri-la.

Skinner está diante dele, com um ar circunspecto. Suspende um pouco o aro dos óculos.

Mulder não se deixa abalar pelo acontecido.

Skinner os fita, entendendo e aceitando sua explicação. Observa.

A mesa de Mulder repleta de pastas, relatórios e fotos; Scully, compenetrada está com o olhar fixo na tela iluminada do computador, manejando o seu mouse.

Skinner faz um imperceptivel meneio de cabeça, imaginando dentro de si mesmo que a dinâmica dupla de seus agentes de confiança são de extrema responsabilidade e discrição. Sente-se feliz por vê-los sempre juntos, unidos no trabalho mas distante o bastante num plano mais íntimo.

Mulder volta-se para Skinner.

Ele cala-se, vendo o olhar acusador de Scully sobre si.

Skinner, mais uma vez, dentro de seus pensamentos considera o quanto os seus funcionários têm de disciplina e responsabilidade.

Sente-se triunfante na sua competência como um exigente Diretor Assistente.

* * * * * *

Chega ao término a reunião que havia se prolongado bastante.

Mulder despede-se dos Diretores, afastando-se a seguir.

Está indeciso em seus passos: ir logo para casa como deseja ou fazer antes o que planejava há dias? A limpeza no seu apartamento torna-se uma coisa imprescindível. Jamais deixaria a cargo da faxineira colocar no lixo os seus objetos, tais como: fitas e revistas pornôs, tão de desagrado de Scully.

Ele agora sente-se na obrigação de dar um fim nesses objetos e quer ele mesmo, resolver o caso.

Não mais precisará ver cenas eróticas em filmes com a intenção de excitar-se, se tem a sua própria personagem ao vivo para amar, usufruir do gôzo dos desejos que ela lhe proporciona.

Só em pensar em Scully todo o seu ser entra em ebulição. Seu sangue parece querer ferver de prazer dentro de suas veias. A sua Scully é a dona total e completa de sua vida agora.

Fecha os olhos, divagando, vendo em sua mente o jeitinho céptico e altaneiro dela, mas que carrega dentro de si uma alta dose de fervor amoroso. Ela o retribui sempre em todos os seus anseios ardorosos nos momentos de amor.

Abre os olhos e enfrenta a realidade. Começa a caminhar pelos corredores para alcançar o elevador.

Duas figuras femininas acompanham seus passos de longe, sem que ele perceba.

A outra dá uma risada.

Apressa-se no andar, para com rapidez juntar seus passos aos de Mulder.

Porem ela já havia abordado o Agente.

- Oi? - cumprimenta-o

Aproxima-se a outra colega. E Mulder a vê.

Mulder lança o seu melhor sorriso para as duas.

Kate levanta as sobrancelhas, com ar intrigado.

Mulder faz um gesto com a mão.

Novamente Mulder sorri e dá meia volta.

As duas o vêem afastar-se.

Pára, com ar aborrecido, enquanto a colega observa a sua raiva e frustração.

* * * * * *

Um toque de mão sente Mulder em seu ombro.

É Martin, que o alcançara. Coloca um braço sobre os ombros de Mulder, amigavelmente, para irem caminhando.

Mulder movimenta a cabeça, negativamente.

Mulder não sorri ante as palavras de ironia do seu colega. Pareceu-lhe haver um toque de sarcasmo nas palavras de Martin, entendendo ser o compromisso de Mulder somente um encontro banal, com uma mulher qualquer.

E seu amor por Scully não é apenas uma aventura.

Nada que venha a atingir a integridade moral de sua Scully o pode deixar satisfeito.

Martin afasta-se, acompanhando uma turma de outros agentes.

* * * * * *

Kate e Sue haviam se encaminhado para sua sala.

Conversaram mais entre si durante algum tempo.

Ao encontrarem-se as duas no corredor, a figura pequena e sempre elegante de Dana, nos seus altíssimos saltos altos, chama a atenção de Sue, que fica pasma.

Olha para a direção que a colega está direcionando sua vista.

No momento em que Scully aproxima-se das duas, Kate a faz parar.

Dana cruza os braços e espera, mal disfarçando a má vontade em ter que aguardar a frase da colega.

Sue está visivelmente incomodada:

Kate aponta para Sue, mostrando-a a Dana:

Scully meneia a cabeça, afirmativamente, mas sem sorrir.

Scully volta-se para ver o que ela lhe deseja falar.

Essas palavras produzem o efeito de uma lança venenosa dentro do coração de Scully.

"Como?! Mulder resolvera ir naquela festa? Impossivel! Ele estava doidinho pra chegarmos em casa e nos... - corta, imediatamente, o resto do pensamento - Não é possível o que está acontecendo! Não acredito! Festa?! Ele foi a uma festa?! Qual é a explicação plausível que ele poderá me dar para esse modo idiota de comportamento?"

Um grupo de homens e mulheres aproxima-se agora, em direção ao elevador, deixando o trabalho.

Dana, ansiosa, dirige-se a um seu colega.

Essas palavras completaram toda a intrigante pergunta que estava dilacerando o coração e os pensamentos de Dana Scully. Sente-se péssima. Enjoada. Fatigada e num extremo desânimo.

"Nada de desgosto, nem desânimo;

se acabas de fracassar, recomeça."

Marco Aurelio