UMA DOR ESCONDIDA

 

"A dor mais cruel é a que vela

fria e inerte no fundo do coração."

George Sand

 

Capítulo 36

O aquário iluminado transmite uma tênue luz no ambiente.

O silêncio somente é quebrado pelo ruído discreto do motorzinho que produz as infindáveis bolhas dentro dele.

Mulder, deitado no sofá, olhando para o aquário ali ao lado, reflete sobre sua vida, sua rotina, o passado, o futuro...

Mulder senta-se. Toma nas mãos o pratinho com o doce.

Dana senta-se a seu lado.

Ele devora o conteúdo do prato rapidamente. Fica observando Dana a saborear o seu.

Dana leva à boca de Mulder uma colherada do seu doce, a qual ele abocanha rapidamente.

Scully ri. Prepara mais uma colher para oferecer-lhe.

Neste mesmo instante Mulder acompanha o gesto de Scully levar a colher à própria boca e no mesmo momento ele abocanha o doce juntamente com ela.

Ambos comem a porção na mesma colher, achando graça na brincadeira que fazem.

Ela coloca os pratinhos na mesa e abraça-se a ele.

Olham-se mutuamente. Dão risadas.

Resíduos do pudim esstão em volta da boca de ambos.

- fala, espremendo a voz, mas usando um tom sensual.

Mulder, impetuosamente, a agarra como a uma frágil boneca e a coloca cuidadosamente no chão.

Dana ri, divertida.

Mulder acaricia com os lábios todo o corpo da amada, desnudando-o muito habilmente do quimono, manejando seus dedos ágeis de forma a rapidamente tê-la completamente à mercê de seus carinhos.

Sua boca sensual e voluptuosa vai acarinhando os caminhos ansiados pelo seu incontido desejo.

* * * * * *

Ambos estão quietos, fitando o aquário, com seus peixinhos incessantemente a movimentarem-se dentro dágua.

Mulder fica embevecido, olhando-a dar as risadas que saem livremente de seu interior.

Para ele é gratificante vê-la rindo assim, nos últimos tempos, porque, na verdade, nos tempos passados, Scully não costumava sorrir-lhe com assiduidade.

Ele aperta-a com força.

Dana coloca a boca junto a seu ouvido e numa sussurrante voz sensual, lhe fala:

Dana levanta-se rápido e sai de seu lado, amuada. Cruza os braços. Coloca-se diante da janela.

Ele levanta-se, por sua vez e dirige-se para ela, sorrindo:

Segura-a pelos ombros, olhando-a de frente. Seus verdes olhos nadam em lágrimas. Fita-a intensamente.

Com a boca encostada nos ruivos cabelos de Dana, ele a mantém presa a si.

Quer sentir-lhe o perfume. O calor. O estremecimento pela emoção.

No fundo, bem lá no fundo do seu peito, existe algo a atormentá-lo, deixando-o amargurado.

Algo que não tem a capacidade de definir, mas que lhe tem trazido ao coração uma queixa, um tormento. Uma dor escondida lá no fundo do seu coração.

Algo que o deixa com a alma abatida. Os pensamentos pesados e o coração contristado.

Não tem idéia do que sente, do que está por vir... só sente abaterem-se suas forças de pensar positivamente, pois uma negatividade assustadora o está derrubando, forçando-o a condoer-se de si mesmo, imaginando-se perdido num mundo que não é o seu.

Uma terrível e desgastante dor o abate, o entristece, o arrasa...

Scully, porem, a sua Scully, não pode sequer desconfiar de todo esse seu drama interior.

Deseja mantê-la fora desses maus agouros.

Mulder afasta-a de si. Levanta o dedo indicador, forçnndo um sorriso no rosto preocupado.

Dana sorri também, embora agora um pouco tristonha.

Dana sorri, vendo o falso interesse de Mulder em relação a filmes em cartaz. Cruza os braços.

Dana toma o rosto dele entre suas mãos, fazendo-o inclinar-se até ela e dá-lhe um beijo rápido nos lábios.

* * * * * *

O cinema está repleto.

De mãos dadas, Mulder e Dana entram no enorme saguão.

Dirigem-se ao balcão e fazem a compra.

Ele aperta-lhe a mão, com calor.

Procuram acomodação dentro do salão de projeção.

O documentário mostrando notícias, trailers e eventos é exibido na tela.

O nome do filme, assim como a equipe de produção e o elenco aparecem delineados sobre o risco de um belo ramo, que, aos poucos, vai sendo desenhado na grande tela.

A personagem aparece caminhando vagarosamente, com porte altivo, no ambiente escurecido.

Suas vestes do século passado, nas mãos uma longa sombrinha, na cabeça um chapéu em trabalho rebuscado.

Sua imagem surge à luz, enfim.

Seu rosto de uma beleza singela, pele alva, sorriso de dentes perfeitos.

Mulder continua pasmo, de olhar fixo na tela.

Alguém sentado atrás deles, já amolado com a conversação, lança a frase, em voz irritada:

Mulder e Scully olham-se com um sorriso.

Ele aperta a mão de Dana. Encostam-se bem um no outro. Vêem sossegadamente e agora calados o desenrolar da dramática fita "The House of Mirth".

* * * * * *

Entram no carro.

Mulder ajuda-a a prender a fivela do cinto.

Existe... ahn... uma forma dessa doença chamada melancolia involutiva, quando subitamente o indivíduo sente que sua

vida inteira foi inútil e que ele nunca chegou a realizar coisa alguma e que tem sido somente um peso constante para sua

família ou para si mesmo.

Nesse estágio corre sérios riscos de suícídio, como o caso da personagem do filme.

Mulder, enquanto coloca a chave de ignição no motor, olha Dana, profundamente admirado por seus conhecimentos.

Desperta, enfim, do seu enlevo apaixonado.

 

 

 

 

 

 

Dana dirige o olhar profundamente azul para ele:

Ela entreabre os lábios e desliza a ponta da lingua sensualmente sobre eles, fixando com o olhar a boca desejada de Mulder, com a clara intenção de excitá-lo.

Mulder, imediatamente põe o carro em movimento.

- Scully! - chama em voz alta, eloquente e em grande excitação.

 

 

"A eloquência é um

incêndio na lógica."

Lyman Beecher