PALAVRAS... APENAS

 

 

"As duas palavras curtas e de mais fácil pronunciar

- sim e não - são as que reclamam mais detido

exame."

Pitágoras

 

Capítulo 5

 

O sol esplendoroso banha em cheio toda a região do maravilhoso vale verdejante.

Pássaros fartam os ouvidos humanos com a suavidade e melodiosidade de seus trinados.

O marulhar das águas dos regatos também colaboram para essa melodia, com o constante murmúrio no seu caminho entre as pedras.

Um sem fim de sons irreconhecíveis misturam-se ao ruído de todas essas coisas.

 

Fox Mulder sai de seu carro; respira fundo o ar puro do local.

 

Dana Scully recosta a cabeça nas costas do banco e fecha os olhos, ajeita o corpo mais confortávelmente em puro relaxamento.

 

Ele coloca a cabeça à janela do carro:

Scully, eu vou ficar um pouco aqui. Primeiro porque preciso descansar minhas pernas e depois necessito de uma higiene mental. Tudo bem?

 

 

 

Um espaço grande de terra recoberto em branca areia; aqui e ali alguns tufos de uma grama silvestre aflora naqueles extensos metros, sem pedregulhos no seu caminho; tudo muito plano na superfície até chegar à beira dos regatos.

 

Mulder retira o pesado agasalho, joga-o no banco do carro e afasta-se.

 

Scully o vê deitando-se no chão de areia, braços cruzados sob a nuca com os olhos abertos fitando a intensidade de luz do sol que resplandece no lugar.

Sente um imenso carinho a arrebatar-lhe o coração.

Seu colega de trabalho, seu parceiro, seu amigo; porem ela sente bem algo mais que isso. Sente-o como alguém diferente na vida dela, um ser humano, normal, mas que a fascina, deslumbra.

Continua observando-o de longe; deitado, pernas bem esticadas afim de alongar bastante os nervos tanto quanto seu corpo agüente e deixá-los relaxados.

Dana percebe que aquele homem ali, tão à vontade, como sempre aliás, em todas as ocasiões, somente sente-se inibido, tímido, absurdamente envergonhado quando nos momentos em que eles dois estão juntos e começam a conversar mais intimamente.

Fox Mulder, esse companheiro amigo, sincero, completo, leal a fascina. Mas como dizer-lhe isso simplesmente, afinal? Não pode e não deve, pensa, então.

E quando Mulder vem-lhe com insinuações de que a ama? Como poder acreditar? E como poder concordar com isso?

Dana precisa de razões mais plausíveis para crer nas palavras que ele lhe confessa em certos minutos e que ela pode acreditar que são românticas ou somente pronunciadas nas oportunidades que propiciam-lhes palavras mais doces, mais enlevadas.

Continua olhando para ele lá, deitado, repousando.

"Ah, Mulder... eu queria tanto que fossem tão simples as coisas! Por que têm que somente as palavras suplantar nossa mente, nosso sentimento...? Por que, Mulder, não podemos nós dois sermos como a maior parte das pessoas, homem e mulher, que declaram-se, mutuamente seus sentimentos um ao outro tão facilmente, sem restrições?

As palavras emergem-lhe à boca tão fácil e habilmente... porem logo suas atitudes comandam todos os seus mais ínfimos desejos...! Nós, não; parece nem termos esse direito! Somos duas pessoas que sofremos os horrores da solidão pelo simples fato de que não temos coragem para se levar uma vida juntos, nos amar... por que há dúvida em nossos corações, Mulder?

Mulder, sabe o que eu queria mesmo? Agora? Neste exato momento? Ir até onde você está agora, deitar ao seu lado e deixar-me ficar e junto a você falar dos meus sonhos, pensar nos meus projetos... mas fico aqui, tola, só com o desejo a tomar conta dos meus sentidos...

Queria poder deixar-te tomar-me nos teus braços... queria poder sentir tua boca sequiosa tocando-me toda... oh, Mulder, por que temos que ficar assim tão frios por fora se por dentro de nós a paixão nos aquece tanto?

Ouve o meu coração, Mulder! Vem aqui e me arranca desta indecisão!"

Cessam neste ponto os pensamentos de Dana.

Ela coloca a mão na maçaneta da porta.

Está em dúvida.

Por que não sair do carro um pouco?

Afinal, como havia dito Mulder, é bom para esticar as pernas e relaxar um pouco...

 

 

X x x x x x x x x x x X

 

Mulder continua deitado, permitindo que o cálido sol aqueça seu corpo.

Tem os olhos fechados, agora. Já sente a vista abrasado pelo calor do sol.

Pensa no que a vida lhe havia reservado. Pensa nas atitudes que quantas vezes já tomara a respeito de Dana Scully, a sua companheira de trabalho, amiga.

É... na realidade a vida lhe tem sido dura demais... um trabalho insano; uma lida sem tréguas; não há tempo para pensar, cuidar-se, ter uma existência como todo homem normal... amar... ter uma família...

 

"Mas com quem poderia pensar viver uma vida dessas? Claro que somente com aquela mulher que está ali, dentro do carro, olhando-me de longe, porem jamais poderá ser minha, pois na realidade tem um modo de pensar diferente das demais mulheres.

Com Scully não tem situação romântica que a distraia da sua extrema racionalidade!

Coloca sempre à frente suas decisões mais frias, mais sensatas, como se me amar fosse a atitude mais errada que pudesse tomar.

Sinto-me frustrado às vezes pela sensação que me causa esse desengano de amor.

Ah, Scully, que coisa mais gostosa seria ter-te nos meus braços, sentir toda a vibração do teu corpo, enquanto aqueço-te toda com a minha paixão...!

Às vezes fico pensando se a atitude que costumo seguir de respeitá-la, perseverar nos meus sonhos com você, reprimir os meus desejos, poderá me recompensar com alguma coisa com que eu possa ser feliz... mas qual nada! Quão infeliz me sinto, Scully, porque não tenho você pra mim...

O ciúme corrói-me as entranhas quando o olhar de qualquer homem pousa sobre você, sobre tudo seu que quero só pra mim, só pra meu prazer...

Estou perdido! Somente o trabalho me pode tirar a concentração que posso sentir no meio dessa solidão; por outro lado o próprio trabalho massacra e arrasa minha vida pela exigência e necessidade de tê-la sempre ao meu lado... tendo que vê-la... tocá-la... ouvi-la falar... vê-la sorrir...

Estou apaixonado, Scully! Me ouça! Leia meus pensamentos! Eu preciso que você me escute, Scully! Preciso de você!

E é engraçado... estamos tão próximos e tão longe ao mesmo tempo!

E necessito tanto vê-la tomar uma atitude a meu respeito...! Eu quero um dia poder rir desta situação que vivemos agora, desta época em que apenas nos olhamos ou apenas levemente nos tocamos, Scully!

Estou torcendo pra isso!

Eu quero poder estar compartilhando do seu dia a dia, não somente nestas horas em que trabalhamos e lutamos incessantemente pela nossa sobrevivência, não somente pelos nossos ideais, mas também estar sempre com você, Scully a todas as horas, minutos, segundos...

Por que você não sai desse carro e vem até aqui?

Estou esperando... vem! "

 

X x x x x x x x x x x x X

 

 

Dana sai do carro.

Olha à volta o vale verdejante.

As nuvens brancas e brilhantes pelos raios do sol no céu azul.

O ruído das águas e os cantos dos pássaros.

O farfalhar das folhas das árvores e arbustos.

 

 

Ela vem caminhando e fitando-o até onde ele está deitado.

Senta-se a seu lado.

Por que não deita um pouco, lindinha?

 

 

 

 

 

Ela ri:

 

 

Várias florezinhas silvestres estão num pequeno arbusto ao seu alcance e Mulder colhe muitas delas. Arruma-as na mão, como um ramalhete.

 

 

 

 

 

 

Dana encosta-as em sua face rosada e afogueada pelo sol, fazendo-as roças sobre sua pele:

- Nesse caso... ahn... são especiais... é afeto...

 

 

- Sempre espero que sim. - replica.

 

 

 

 

 

Mulder senta-se para olhá-la de frente e poder mirar o azul dos seus olhos, enquanto ouve-a dar a palavra que espera.

 

 

 

 

Ele toma-lhe a mão.

Acha que este é o momento de maior intensidade que já sentiu sobre as palavras pronunciadas por Dana.

 

 

O som de uma estridente buzina ecoa na estrada desviando-lhes a atenção.

Os dois dirigem o olhar para a direção da qual vem o barulho.

Uma enorme carreta de muitos metros de comprimento tenta forçar a ultrapassagem de um carro de passeio. A colisão é inevitável.

O ruído de freios e o baque surdo dos dois veículos jogados um contra o outro faz os dois Agentes levantarem-se rapidamente e verificar o acontecido.

 

Mulder fala a Dana, enquanto puxa a antena do celular e dando um suspiro:

 

Dana respira profundamente, engole em seco e dois dirigem-se para os dois veículos acidentados.

 

Mulder e Scully, enquanto estão a correr a fim de procurar auxiliar alguém prejudicado no acidente que haviam presenciado, protestam em uníssono dentro de suas mentes:

"Nossas confissões nunca passam de palavras..."

 

Pois,

"A confissão é para o amor-próprio um sacrifício."

Campoamor

CONTINUA...

07.04.2000