CALÚNIA

 

"A calúnia é como o carvão;

quando não queima, suja."

Camilo Castelo Branco

Capítulo 66

Mulder, com Dana sentada sobre seus joelhos, examina-lhe as mãos, tomando-as entre as suas, toca-lhe os dedos e, segurando ambas, leva-as aos lábios, como se para sentir-lhe o calor da pele muito clara.

Dana o faz soltar-lhe as mãos. Abre a camisa dele pela gola.

A enorme e grotesca cicatriz avermelhada aparece diante de seus olhos.

Ela passa, suavemente, os dedos sobre a enorme marca da dor deixada pelos seres extra-terrestres que o haviam tanto maltratado, até mesmo tirando-lhe a vida.

Ele segura a mão dela para que continue aquele gesto de ternura e fecha os olhos.

Dana recosta a cabeça sobre o ombro forte dele, mansamente.

Com dedos suaves volta a fechar com uma das mãos a camisa de Mulder. Pousa os lábios sobre os dele, como que acarinhando-o e mostrando a sua capacidade de repartir com ele a dor que atormenta sua alma desde aquela época de infortúnio e morte.

Há, entre os dois neste instante, um verdadeiro entrelaçamento de sentimentos de compreensão e entendimento.

* * *

Mulder sente-se até incomodado por estar ali, entre aqueles papéis e documentos no odor de material envelhecido do papel amarelado pelo tempo. Mas necessita achar entre aquela montanha de pastas, o assunto que lhe interessa no momento.

Porem algo lhe falta ali. Algo que supre a sua necessidade, a sua carência por um afago, uma palavra amiga, uma concordância ou até mesmo uma discordância nos seus pensamentos e idéias: e esse algo lhe faz imensa falta! A presença de Dana.

Sem mais nada esperar, toma o telefone. Digita o número.

Mulder sorri. Permanece calado, enquanto mantém o telefone no ouvido. Deseja somente ouvi-la falar.

Scully, da mesma forma, mantém o fone junto ao ouvido, na expectativa de ouvir novas palavras dele.

A voz de Mulder havia soado sincera. Franca. Espontânea. Gentil e suave na sua mansidão. De sua garganta aquelas bolinhas de gude haviam corrido frouxamente, dando-lhe um toque de sensualidade.

E essa voz sempre fascinara Scully.

Ela fica perdida no tempo ouvindo-o falar. É o seu deleite. É o seu prazer imenso e ditoso. Permanece parada, com o telefone no ouvido.

Diz isso e aguarda. Sorri, amorosamente, com o coração a disparar.

Do outro lado da linha o silêncio.

Mulder também sorri.

Sabe que do lado de lá do telefone a sua amada o deseja escutar.

E riem-se, divertidos com a coincidência.

Mulder desliga vagarosamente o aparelho, recolocando-o na base.

Fica pensativo, fixando o olhar no vazio do ambiente. A falta que sente da sua Scully é avassaladora. É quase uma dor. A dilacerar-lhe por dentro, fibra por fibra.

Com esforço, passa a deixar-se envolver pelo assunto que ora encontra-se pesquisando no meio do amontoado de papéis.

Levanta-se e dirige-se ao arquivo de aço. Puxa uma gaveta. Manuseia as pastas, atirando algumas displicentemente sobre a mesa, à distância. Olha para o relógio. Quase cinco horas da tarde.

* * *

A reunião transcorrera rápida e eficientemente produtiva.

Skinner está acompanhando Mulder para a saída da sala de reuniões.

Mulder, no seu modo característico de caminhar, aguarda as palavras de Skinner, diminuindo os passos.

Mulder leva ambas as mãos à cintura, empurrando para trás o paletó.

Ao falar isso, Skinner afasta-se e volta-se rapidamente para trás.

Mulder, contrafeito, o vê afastando-se e consulta o relógio de pulso. Sente que o desejo de estar junto a Scully é maior que todas as sensações que possam advir à sua alma.

Mas segue o Diretor Assistente.

* * *

O som estrepitoso da porta batendo soa aos ouvidos de Dana como uma explosão.

"Estou vulnerável a qualquer coisa que me cause algum susto ou mesmo um barulho mais alto."- pensa.

Mulder já havia entrado. Atirara-se numa poltrona, esticando as pernas, cabeça jogada no encosto. Olhos fechados. Imóvel. Calado.

Dana insiste, dirigindo-se à sala.

Vê Mulder no seu modo negligente de ser, como sempre, porém muito calado.

Ele não abre os olhos e nem responde.

Dana aproxima-se, intrigada.

Pousa, suavemente a mão nos cabelos dele, afagando-os. Senta-se no braço da poltrona.

Ela entende. Sente amargura na voz dele. Retira a mão de sobre seus cabelos e fita-o, entristecida. Permanece sentada. Calada. Apreensiva.

Mulder, num ímpeto, levanta-se e, retirando raivosamente o paletó, como se o mesmo estivesse queimando sua pele, aperta os lábios, demonstrando ira.

Da mesmo forma desfaz o nó da gravata, desabotoa os punhos da camisa, retirando-a pela cabeça. Com as peças de roupa na mão, num gesto de raiva e impaciência, olha para Dana que o assiste, impassível, embora com amor no olhar.

Ela aguarda que ele solte o que tanto o está sufocando na garganta.

Mulder passa a mão pelo rosto, olhando para o chão. Seu ar denota desespero. Raiva.

- Calúnia... calúnia! - murmura entre dentes.

Essas palavras seriam quase imperceptíveis aos ouvidos de Dana, que, no entanto, pode captar muito bem que ele tem dentro de si uma grande revolta.

Dana sacode a cabeça negativamente, ainda fitando-o, sem entender.

 

"Em última análise, só é ridículo

o medo de ser ridículo."

Henri Fauconnier