Este é o capítulo n-º 77 do Folhetim Devaneios.

 

O PRAZER DE UMA VINDA

 

"Devemos procurar o prazer na felicidade

e não a felicidade no prazer."

R. Guillon

 

 

Neste momento, dentro da casa estranha, embora agora mais ou menos limpa e arrumada pela sua dedicada colega Agente Reyes, que mesmo sem ter acesso a água encanada no interior da habitação, fôra até o poço apanhar o precioso líquido para a limpeza, Dana, com o seu corpo pesado, mente cansada, abatida, reflete sobre os acontecimentos das últimas horas.

E enquanto encontra-se nesse desconfortável lugar, longe de sua casa ou de um hospital, sua mente divaga pelas lembranças do acontecido.

Quanta louca correria passara com Mulder fugindo, fugindo... sempre fugindo ou então sempre perseguindo o perigo para suas vidas.

A cada minuto percebe o quanto é preciosa a vida; muitas vezes até já havia deixado de aperceber-se disso.

E Mulder... o seu Mulder, quanto esforço para livrá-la das garras de seus perseguidores!

E até quando poderá lutar contra isso? Sempre o fazia em situações normais, por achar que aquilo era parte de seu trabalho, mas agora, com essa nova vida dentro de si, sua alma clama por paz, segurança e principalmente sossego.

Até fôra bem agradável a reunião das amigas no seu "chá de bebê"; estivera feliz por algumas horas, excetuando o fato de a maldita mulher desconhecida haver mexido em seus medicamentos no armário do banheiro. Qual a maligna finalidade desse gesto?

Esse fato a tornara apreensiva, como havia confessado à Maggie, sua mãe.

Está refletindo neste instante no que poderia ter-lhe causado se qualquer coisa negativa ocorresse para prejudicar o nascimento de seu bebê.

"O meu bebê amado...!" - pensa.

Sente que uma leve dor manifesta-se em seu útero tenso e enrijecido.

Sente que, aos poucos, conforme passam-se os minutos, a dor vai aumentando de intensidade.

Uma dor cansada, que lhe enfraquece as pernas e lhe faz pesar o baixo ventre.

E sente receio. Um receio imenso.

Ela está certa de que o momento esperado durante nove meses é, enfim, chegado.

- Mulder! - repete.

Sente escorrer pelas pernas o líquido morno da bolsa em que se encontra seu bebê e que acabara de se romper neste instante.

Imediatamente passa por sua mente a idéia de que há a necessidade premente de ser levada para um hospital.

"O cordão umbilical... o bebê corre o risco de que o cordão o envolva e ele... meu Deus! Preciso ter o máximo cuidado... não posso movimentar-me bruscamente... meu Deus, preciso de ajuda! Estou sentindo que a hora é chegada. Meu bebê já está vindo! E se ele for... e se ele..." - sacode a cabeça, tentando arrancar os maus pensamentos - ... ele já está pra nascer... assim como eu, Mulder também está apreensivo, ambos sabemos... meu Deus, me socorre! Preciso ter o meu bebê sem riscos, longe da maldade, que nos persegue a mim e ao pai dele..."

Cambaleante, ela apoia-se para ir até ao banheiro. Sabe que a hora é chegada.

Já sente em seus pés a quentura do líquido que continua escorrendo por suas pernas. Só não sabe daqui para frente quanto tempo poderá levar até a exata hora do nascimento da criança.

Seu instinto percebe a necessidade de algo mais seguro.

Estar neste lugar... sem nada que a socorra... sente extrema necessidade de ser levada a um hospital. Precisa. Necessita.

Mas como? Não pode! É uma fugitiva! Está lutando pelas vidas sua e de seu precioso filho! Os alienígenas... os malditos alienígenas querem pegá-lo!

E Dana aflige-se.

Seu corpo pena. Sua alma sofre. Seu coração estraçalha-se na dor.

* * * * *

Dana, arfante, aflita, não quer deixar a Agente Reyes em pânico, mas estando há já algum tempo nessa situação, tem que avisa-la de que está prestes a dar a luz.

Dana vê o vulto da Agente Reyes aproximando-se rápida, no ambiente lúgubre, escuro, iluminado apenas pelas chamas serenas das velas acesas.

A Agente Reyes chega para falar bem próximo.

A Agente Reyes baixa os olhos, pensativa.

Como poderia negar à colega esse fato, se a sua própria vida também estava correndo risco? Sente-se até um pouco infeliz por nada poder fazer, a não ser contar com a sorte.

- Monica! - chama arfante.

* * * * *

Frohike, Langly e Byers, os fiéis amigos, contemplam embevecidos a obra primorosa da natureza nos braços de Dana.

A criancinha emite como um pequeno gemido um leve chôro.

Dana sorri meigamente, afagando o rostinho do seu bebê.

Byers adianta-se:

Dana fita-o, percebendo o drama que envolve os pensamentos do fiel amigo neste instante.

Ela agradece com um meneio e um leve e amável sorriso.

Os três homens deixam o quarto, levando em seus rostos a felicidade pela vinda do bebê que havia chegado para encher de prazer o coração de todos.

O filho que Dana Scully tanto havia desejado.

Dana olha o filhinho em seus braços. Pega-lhe as diminutas mãozinhas perfeitas, os pezinhos aquecidos dentro dos sapatinhos de lã. Afaga-lhe a cabecinha quase desprovida de fios de cabelo. Tão pequenino ser! Tão frágil!

O seu filhinho amado. Carne de sua carne. Sangue do seu sangue.

Aguarda ansiosa a chegada de Mulder para vê-lo.

O pai de seu bebê! O seu amado!

O prazer que a vinda desse filho lhe trouxera é tão forte, que, embora Dana esteja lutando contra o cansaço, o desânimo, o mal-estar provocado pelo parto atribulado e cheio de riscos que sofrera, seu desejo é de propagar aos quatro ventos sua felicidade. A felicidade pelo prazer de uma vinda aguardada com ansiedade e muito amor.

Sente-se ditosa, feliz, neste momento, apesar da tribulação pela qual tivera que passar nos momentos do nascimento de seu filho e que havia forçado Mulder a separar-se dela e da criança prestes a nascer.

"Por que temos que sempre sofrer perseguições? Seriamos mais felizes se pudéssemos ser pessoas comuns..." – pensa com tristeza.

Um profundo suspiro de alívio sai de dentro de seu peito. Havia ido embora o medo, o desespero pela tensão pela qual passara. Tudo está bem. Ela e o bebê.

Após tanto sofrimento ela pode, então, desfrutar momentos de paz e segurança.

Mulder entra no quarto.

Os olhos azuis de Dana parecem faiscantes de puro encantamento e amor.

Ali está, diante de si, o homem responsável por essa pequena vida que acaba de vir conhecer o mundo. Esse mundo difícil, frio, atormentado e cruel.

Mas a sua criança está ali e seus pais cheios de regozijo por sua presença.

Neste momento vendo Mulder, parece a Dana sentir estar entrando junto com ele, de braços dados, a felicidade e a paz com que Deus os havia presenteado.

- Mulder! - ela murmura em êxtase.

E seu reencontro foi de murmúrios e olhares de ternura, sentindo todo o amor que emana de seus apaixonados corações.

Dana coloca nos braços jeitosos de Mulder, o seu filhinho.

O ambiente leve, acolhedor e amoroso os faz sentirem-se extasiados pela paixão.

Trocam frases cheias de ternura.

Mulder procura os lábios de Dana e em sua boca coloca o que os seus próprios lábios não precisam pronunciar.

Beijam-se ternamente.

Suas bocas unidas, sentindo o recíproco gosto, a tontura do desejo, o prazer da ternura, o calor das carnes, a felicidade de estarem ali juntos, desfrutando de toda e plena ventura do seu sofrido amor.

Mulder, com a criancinha nos braços, continua sentindo a quentura dos dois corpos junto ao seu: a do seu filho, pequenino ser amado, recém-chegado aos seus braços e ao seu amor de pai e o de sua mulher, a forte e determinada Scully, agora assim tão frágil e pequena, mas na qual havia sido gerado um ser vivente.

Que crescerá e ficará forte, determinado, céptico, honesto, puro e fiel como sua mãe ou então herdará do seu pai a credulidade às coisas mais intrigantes deste mundo, sendo impetuoso, porem sensível.

Dana envolve-o com os dois braços com mais calor.

Ele sorri. Procura os lábios dela mais uma vez.

Sorvem-se. Degustam-se. Prazerosos.

É muita felicidade. Nem acreditam.

O bebê faz um trejeito, movendo as pernas e braços, inquieto. Enquanto choraminga baixinho.

Desprendem os lábios.

Mulder coloca a criancinha nos braços de Dana.

Mulder abre o decote do robe de Dana, fazendo aparecer o seio farto dela.

Ela acompanha ternamente os gestos do jeitoso pai.

Dana sorri meigamente:

E enquanto o seu filhinho alimenta-se com apetite, Mulder desliza, levemente, os dedos na cabecinha dele.

Aperta Dana contra si. Sente-se feliz. Os dois são um pedaço de sua própria vida.

Apertada entre os braços mornos de Mulder, Dana sente-se no céu. Aspira com prazer o perfume da loção de barba no queixo que ela adora dar pequenas mordidas, com paixão.

Permanecem quietos, apenas sentindo-se, carne contra carne, sabendo que nem as dificuldades e os perigos passados há horas atrás, haviam conseguido tira-los dos seus sonhadores pensamentos.

Dana enche seu coração de regozijo pelas palavras de Mulder.

Ele sussurra-lhe nos ouvidos.

Corre-lhe com os lábios por sobre a testa, deslizando até o queixo de Dana, ardoroso.

Ela tenta ler o nome na capa:

Ela novamente tenta soletrar o título do CD.

Ela a examina com atenção.

Uma pequenina janela, em cujo vidro aparece uma estrelinha amarela, é o que simboliza ser o quarto de um ursinho bebê estilizado, dormindo pacificamente em sua confortável caminha.

Os olhares trocados falam toda a paixão que existe nos seus corações.

"Deus fez abismos para que o homem

compreendesse as montanhas."