E IMPERA A VAIDADE

 

"Por vaidade, as pessoas mais insuportáveis são os homens

que se acreditam geniais e as mulheres que se

consideram irresistíveis."

H. Asselin

 

Capítulo 98

O casal, sentado à mesa do restaurante e ouvindo o burburinho das vozes das pessoas que frequentam o lugar, come sua refeição. Lentamente. Aproveitando o máximo a oportunidade de poderem estar a sós, usufruindo da recíproca companhia um do outro.

Mulder, levando um garfo à boca, olha Scully, que beberica o conteúdo da taça alta em sua mão.

Mulder sorri, fitando-a, ardorosamente.

Mulder cala-se e observa-a, mastigando vagarosamente uma das iguarias servidas na sobremesa.

Mulder morde o lábio inferior. Passa o dedo sob o nariz, contrafeito. Encosta-se jogado no espaldar da cadeira, ombros arriados, fitando-a, apertando os olhos miúdos.

Mulder esquadrinha-a com o seu olhar verde transparente; um vago sorriso desenha-se em seus lábios.

Ele passa, rapidamente, o guardanapo sobre os lábios.

Mulder não se faz de rogado.

Num segundo chama o garçom para que este se aproxime; mete a mão no bolso, tira as cédulas para pagar a refeição. E como é de seu hábito, sem nenhum cavalheirismo, levanta-se, afasta-se da mesa, deixando Dana caminhando atrás dele.

Logo chegam ao estacionamento.

Mulder abre a porta do carro e entra, jogando-se no assento.

Dana faz o mesmo no lado do carona.

Colocam os cintos de segurança. As mãos se tocam, mas os olhares mantém-se distantes um do outro.

Mulder liga a ignição do carro. Coloca os cotovelos sobre o volante e prende a cabeça entre as mãos.

Dana nota esse seu gesto, porém nada fala. Apenas o olha de soslaio, sem voltar-se em sua direção.

Por alguns minutos ele permanece nessa posição. Logo após ergue para trás a cabeça, e, com os lábios entreabertos, parece aguardar uma palavra de Dana, enquanto tenta relaxar da tensão em que se encontra.

Dana percebe esse gesto dele, mas olha para fora, através da janela do carro.

Por momentos seus pensamentos voltam-se para seu bebê.

O ruído repentino do telefone celular na sua bolsa a faz ter um rápido estremecimento. Retira-o

Dana sorri. Imagina quanto gasto tem com fraldas descartáveis por mês.

Mulder a olha, quase a contemplando, enquanto ela dá explicações à Maggie onde encontrar os pacotes de fraldas.

Ele fita-a com doçura. E contempla-a como se adorasse uma deusa, entregando todo o seu amor para ela. Repara no seu perfil perfeito. Feições finas. Nariz afilado, ligeiramente curvo. Em perfeita harmonia com os lábios carnudos e bem desenhados. Os grandes olhos amendoados. Brilhando no azul transparente. Enfim, há muita sensualidade sobre o semblante ingênuo de Dana.

Ele desce o olhar para o corpo esbelto dela. Pequeno. Frágil. A sua Scully. Mas tão forte! Tão determinada! O seu encanto!

Dana termina a conversa com sua mãe.

Mulder imediatamente volta o olhar para outro lugar. Distante. Não quer admitir estar a contemplá-la, apaixonado.

Dana guarda o telefone.

Mulder dá a partida no motor do carro.

Não se falam, ainda.

O veículo roda, silencioso, entre os outros carros estacionados no local.

Mulder mantém-se olhando à frente. Presta atenção à pista.

Dana olha-o de soslaio, novamente.

Seu coração pulsa mais forte ao fitá-lo.

As mãos dele que agarram com força o volante. Os dedos grandes e longos como os de um pianista, que deliciam-na com seu toque mágico e sensual às áreas mais recatadas do seu corpo.

O olhar de Dana vai deslizando, acariciador, das mãos dele em direção aos braços. Fortes. Envolventes. Que a sabem segurar com paixão e arrebatamento. O olhar dela observa-o no peito amplo e perfumado, onde ela gosta de se aninhar. O rosto de perfil imponente. O nariz pronunciado. A boca bem desenhada. Os lábios desejosos que lhe sorvem até quase a alma num beijo.

Dana estremece de prazer ao pensar nos momentos em que se amam.

Dana o ouve fazer a pergunta que lhe atrapalha os pensamentos em coisas boas. Sensuais. Com ele. O seu amor.

Mulder não quer encará-la. Deseja é mostrar um semblante indiferente. E não a de um apaixonado que morre de ciúmes.

Dana prefere voltar a vista para as laterais; a rua. Por sua vez não quer que o homem por quem está verdadeiramente apaixonada, descubra que, neste momento, o que ela deseja mesmo é estar entre seus braços quentes, aconchegantes.

Ambos não se permitem admitir que estão loucos para cair nos braços um do outro. Impera em cada um a soberba. O orgulho. A vaidade.

O veículo carrega em seu interior dois seres humanos dos mais cultos, inteligentes, honestos, simples e decentes deste mundo, porém também dos mais altamente propensos ao sofrimento.

E somente por usarem uma terrível estratégia em más ocasiões: o silêncio.

"Há silêncios que são mentiras."

De Vougue