DEVANEIO... IMAGINAÇÃO... FANTASIA.... SONHO... QUIMERA...

CAPÍTULO EXTRA XIV

SONHOS DE UMA NOITE DE NATAL

O NATAL DA GILLIAN

 

Primeira Parte

Autora: Audrey

 


Um chalé num lugar muito frio e com neve..

Por fora ele é todo feito de tijolo vermelho e madeira..

Por dentro é grande, estendido sobre o piso um tapete de pele de urso e com a lareira acesa o tempo todo para espantar o frio..

Uma longa mesa rústica, forrada com uma toalha vermelha, cheia de comida natalina naturalmente "engordativa*..
Sua família não é muito grande, porém muitos amigos a todos se juntaram para comemorar o Natal.
Algumas crianças correm em torno da sala em perseguição a um pobre cachorrinho, entre elas a Piper, a qual a Gillian somente observa com um sorriso suave no rosto, sentada no sofá.

Depois de algum tempo, batem na porta e ela se levanta, indo atende-la..
Entram por ela o David, com um sorriso lindo para ela, lhe estendendo duas garrafas de vinho tinto e algumas sacolas grandes de presentes, a filhinha dele e a Téa.
Gillian pega as garrafas, ao mesmo tempo que a filhinha de David que a abraça com muito carinho, e pede-lhe colocar os presentes embaixo da arvore que fica perto da lareira, grande e decorada de cores douradas e prateadas.

Todos entram e se juntam ao clima natalino com bom humor, menos Téa, que permanece fria e distante, demostrando o seu desconforto de estar presente ali.

Algum tempo depois, todas as crianças se juntam num protesto unido, dizendo que querem ir brincar na neve.

Depois de um certo empurra-empurra de quem seria o responsável por olha-las lá fora, Gillian e David saem com toda a turma de crianças, enquanto Téa resolve ficar do lado de dentro, porque está frio demais e isso pode prejudicar a sua pele.
Esse comentário não foge aos ouvidos da Gillian, que responde fazendo uma expressão engraçada , imitando a Téa em toda a sua futilidade, o que faz com que todas as crianças caiam na gargalhada.

Já, então, do lado de fora, Gillian e David conversam calmamente, até que David é acertado por uma bola de neve perdida lançada por Piper, e Gillian dá muitas risadas, divertida com a cena.

Fingindo-se revoltado, David forma uma bola de neve e atira na Gillian, começando uma guerra invertida entre os dois, e que dura por um bom tempo, até que eles, após uma estratégia mal planejada de David, acabam rolando juntos pelo chão .

Por alguns segundos David acaricia levemente a face de Gillian sorrindo, até que diz:

- Gillian Anderson... oito anos se passaram e o seu rosto não mudou nada.. Deveria vender sua formula de beleza! Aposto que a Téa pagaria uma fortuna para ser como você.

- Hum.. é bem simples.. só é necessário ter felicidade, um homem lindo e inteligente e um pouco de ousadia.. - após dizer isso, Gillian puxa o rosto de David lhe dando um beijo profundo que é correspondido a altura...

Fim da Primeira Parte

 

 

 

 

 

 

Segunda Parte

Autora: Cida

Gillian acordou naquela manhã de vinte e quatro de dezembro bem à vontade... levantou-se e foi tomar um banho. Logo que voltou ao quarto, teve uma grata surpresa: sua cama, seus móveis, tudo estava repleto de lindas rosas de todas as cores e tamanhos... e ao pé de sua cama, lhe aguardando ansiosa, estava sua menininha linda.

Piper, seu maior e mais precioso tesouro, lhe trazia o café da manhã... e um abraço tão gostoso quanto a vida!

"Esse será um dia muito especial...!" foi a única coisa que a Gillian conseguiu pensar, antes de cair em cima da cama com Piper nos braços.

Durante o dia, Gillian se preocupou com cada detalhe da ceia natalina que seria servida naquela noite a familiares e amigos bem íntimos... tudo tinha que estar perfeito, assim como estava sendo sua manhã.

Depois do almoço, Gillian e Piper sairam juntas, só as duas... mãe e filha e foram se divertir como a meses não o faziam... foram ao parque e a Gillian empurrava Piper em um balanço feito de cordas e um pneu de carro... correram livres como duas pessoas comuns, sem medo de serem reconhecidas e abordadas por estranhos (que embora sejam seus fãs, ainda são completos estranhos...)

O dia passou rápido e a tarde já caía, quando elas se sentaram em frente a um lago e viram o sol se pôr. Já estava frio e resolveram voltar para o aconchego do lar.

Gillian nunca havia visto a filha tão feliz e nunca havia, por sua vez, se sentido tão bem, livre, completa, como naquele dia.

Noite... os convidados começaram a chegar; a festa estava bem animada. Já havia passado das vinte e três horas quando Gillian pegou Piper nos braços e a levou para a cama. Tadinha, esta estava exausta, correra e divertira-se muito durante todo o dia... mas Gillian estava exuberante em seu vestido azul, que realçava ainda mais sua pele branca e seus brilhantes olhos azuis, que se emocionaram ao colocar Piper na cama e olhá-la dormir.

"É como um Anjo..." - pensou Gillian, ainda olhando para a filha com os olhos já marejados de lágrimas, mas lágrimas de felicidade!

Ela pôs ao pé da cama da filha todos os presentes que havia comprado para ela e, com um sorriso entre lágrimas, beijou a testa da filha e se despediu com um carinho.

"Boa noite, meu anjinho...!!!"

Foi uma noite realmente especial. Todos os seus familiares presentes, seus amigos mais queridos, sua filha dormindo protegida e cercada de tanto amor... o que mais ela poderia pedir a Deus nesse dia? Estava feliz como nunca antes estivera. Era o centro dos olhares e, como sempre, estava ainda mais radiante que de costume... tudo perfeito... tudo era como um sonho!

Ao soar o sino todos se cumprimentaram e se desejaram felicidades... trocaram presentes e se reuniram em torno da mesa, onde a ceia já estava posta. Foi um momento mágico.

Gillian olhava em sua volta e nada lhe parecia poder lhe fazer mal por tudo que havia acontecido em sua vida até aquela maravilhosa noite e ela pensou dentro de si mesma:

"Não me arrependo de nada que fiz até aqui, pois foram meus atos e feitos que me trouxeram aqui neste momento! "

E ela sorriu, enquanto sua mãe a abraçava e depois seus irmãos, pai e amigos.

Todos haviam ido embora. Já era Natal, já passavam das quatro horas da manhã e era como se ela não precisasse descansar. Ainda estava alegre, radiante e totalmente sóbria na sua alegria.

Desejou boa noite aos seus pais e irmãos e se retirou, mas não para o seu quarto. Foi para o quarto de Piper.

Mal podia esperar para ver a carinha da filha, sua alegria ao desembrulhar cada presente. Só de imaginar, Gillian já sorria...

Deitou-se ao lado da filha, abraçando-a pelas costas e fazendo com que a menina ficasse em posição fetal... e ela a abraçava como se quisesse sentir novamente a filha dentro de si... e assim adormeceu.

Manhã do dia vinte e cinco de dezembro.

Piper acordou com sua mãe ainda lhe abraçando. Ela sorriu ao ver o rosto da mãe tão perto do seu... sentiu o amor que a cercava e a proteção que possuia... olhou maravilhada para todo os cantos de seu quarto e só o que viu foram os pacotes e mais pacotes de presentes por todo o quarto.

A menina sorriu, como que hipnotizada, com as cores e formas tão diferentes de cada embrulho. Ela voltou-se para a mãe e a beijou com força o que fez Gillian despertar de seu sono tranquilo... então sorriu ao ver o brilho dos olhos de sua filha.

E ali, naquele momento, ajudando a filha a descobrir cada presente, cada novidade, ela se perguntava:

"Haverá maior felicidade que esta?"

E olhando curiosa e atenta a bela e agitada menina desembrulhando os presentes, ela sorriu e seu coração se inundou de uma emoção única... AMOR!

Fim da Segunda Parte

 

Terceira Parte

Autora: Marina

Ela acordou com os raios do sol lhe banhando o rosto. Sentiu uma paz enorme. Olhou para o seu lado, observando Piper dormir. Sorriu.

Aquele Natal seria perfeito. Nada em excesso, nada que pudesse atrapalhar. Haviam passado a noite viajando, para chegar a essa casa muito distante da civilização. As coisas já estavam semi-preparadas para aquela noite especial. Tudo era tão mágico...! Não poderia explicar quão impossível era bom estar feliz do jeutio que estava. Ela tinha ali tudo o que precisava... bem, quase tudo.

Gillian sabia que não poderia ter tudo. Havia um detalhe pequeno, mas não com menos importância. Ela sentia saudades daquelas conversas, das gargalhadas, daqueles joguinhos que só eles sabiam jogar. Ela sabia que, se fechasse os olhos e respirasse fundo, podia sentir aquele gosto levemente adocicado se misturando em sua boca e aquelas mãos grandes lhe afagando os cabelos ruivos. Sorriu novamente, após abrir os olhos.

Piper estava a observá-la, sorrindo. O sorriso mais iluminado que uma criança poderia dar. Perguntou o que Gillian estava a pensar, e ela respondeu apenas "momentos bons".

* - * - * - * - *

A noite se aproximava e a mesa já estava decorada. Piper estava linda, num vestido branco com detalhes prateados e Gillian estava com um vestido azul celeste, bem leve, mas que demarcava suas curvas. De repente, um som ecoou pela sala toda. É a campainha. Gillian faz uma careta e caminhou lentamente até a porta e, logo em seguida, sua face se modificou. Um misto de alegria e surpresa.

David lhe sorriu, meio embaraçado. Gillian perguntou como ele a havia achado, mas ele não respondeu ao certo. Ela o convidou para entrar e Piper logo foi até ele, com um grande sorriso. Ele lhe entregou um pacote que estava em suas mãos e ela agradeceu, sentando-se no meio da sala, entretida com seu presente novo.

David e Gillian conversaram um pouco, algumas gargalhadas foram soltas, o que a fez lembrar dos velhos tempos.

Ele lhe disse que tinha que ir embora, pois estava ficando tarde, mas ela insistia para que ele ficasse, pois há muito não conversavam e que... ela estava com saudades dele.

Ele levantou-se, dizendo que realmente precisava ir, embora não o quisesse.

Ambos foram até a porta e ela o acompanhou até su carro. Porém lá fora fazia bastante frio, diferente da casa, que estava bem aquecida.

David lhe cedeu seu casaco e a abraçou, a fim de esquentá-la. Ela sentia aquele perfume forte e aqueles braços que ela, secretamente, desejava sentir.

Ele a fitou, dizendo que já havia feito muitas coisas das quais havia se arrependido. Mas nenhuma se comparava a seu casamento. Sentia um enorme carinho por sua esposa, mas sbia bem quem queria ao seu lado.

Suas respirações estavam mais densas e eles mais próximos. Ele continou dizendo que tentou fugir da realidade e não ver a quem ele amava. Mas agora era hora de agir com maturidade e encarar que... que ele a amava mais do que conseguia. Que isso o sufocava e o sufocava ainda mais saber que haviam tantas barreiras os impedindo.

Ela escutava calada, segurando as lágrimas.

Então ele segurou seu rosto delicado em suas mãos e encostou os lábios nos dela; era um beijo que haviam desejado tanto, durante tanto tempo, que parecia irreal.

O beijo estava mais profundo e suas mãos se encontraram e se entrelaçaram.

David e Gillian se separaram sorrindo.

Ela falou que era um ótimo presente de Natal. O melhor presente que poderia receber.

Ele perguntou quando se encontrariam novamente.

Ela não respondeu; só falou que não podereia ser desse jeito.

Ele afirmou, falando que tudo seria resolvido. Terminou sua frase com um "te amo" e ela retribuiu.

Gillian voltou para casa ainda sentindo o beijo quente dele e seus braços em torno dos dela. Entrou em casa. Era quase meia noite.

Sorriu e foi cear com Piper.

Fim da Terceira Parte

 

QUARTA PARTE

AUTORA: ROSA

O Natal da Gillian

Mesmo que uma ausência se fizesse mais forte naquele dia, mesmo que uma saudade batesse lá no fundo da alma, mesmo que uma vontade de ouvir uma certa voz se fizesse urgente; mesmo assim, eu acredito que ela tenha passado um grande dia, cercada de carinho...

São oito horas da manhã e um final de sonho é interrompido pelo toque do telefone.

Gillian abre os olhos de repente, mas imediatamente os fecha, ofuscada pela luz do dia que entrava pela janela do quarto. Permanece quieta, já em vigília, mas o barulho do telefone já havia perturbado um sonho do qual agora, só lhe restavam algumas impressões tênues. Lembrou-se que estava vestida de branco e cercada por inúmeras pessoas, cujos rostos conhecidos lhe era impossível, agora, determinar. A sensação agradável foi desaparecendo enquanto a realidade fazia ela esticar o braço para alcançar o aparelho de telefone que novamente insistia em tocar.

- Alô, disse ela num tom rouco. Oi, eu acabei de acordar... não, não tem importância, tenho mesmo que levantar, afinal hoje é Natal! Está bem, estarei te esperando à tardinha.

Gillian colocou o fone de volta no lugar e por uns momentos refletiu sobre a amiga que acabara de ligar; as duas eram muito íntimas e próximas e ela sentia o fato dela estar passando por uma crise num casamento de quinze anos que a estava abalando profundamente.

Num gesto rápido, ela se livrou das cobertas e caminhou lentamente até a janela aberta. Os risos e gritinhos entusiasmados de Piper chegavam até seu quarto. Gillian a observou por alguns instantes e sorriu feliz por ter por perto alguém com quem dividir suas alegrias e tristezas. Piper era filha e amiga de qualquer hora em que elas pudessem estar juntas e mesmo ainda menina, ela acompanhava os sentimentos da mãe com carinho.

Naquele dia especial para tantas pessoas, nada era diferente para Gillian. Sua simplicidade era tão espontânea que seria difícil ela passar o Natal sozinha. Ela sentia prazer em organizar tudo para a ceia de Natal e ajuda não lhe faltava.

Logo, logo, a amiga que a despertou cedo, chegava a sua casa com presentes nos braços. A sua chegada provocou uma corrida de Piper até ela, na ansiedade de abrir todos os pacotes. Os mesmos foram colocados sob a árvore de Natal e a amiga e Gillian seguiram para o jardim onde mais tarde, a anfitriã receberia seus convidados.

- Estou te achando calada, hoje. O que houve? perguntou a amiga.

- Nada. Acho que não é nada. Apenas estava pensando porque o Natal me deixa triste? respondeu Gillian com um sorriso discreto nos lábios, antevendo uma resposta conhecida.

Mas a amiga limitou-se a olhá-la, séria, e continuando a ocupar-se com os preparativos, arriscou:

- Você ainda não o esqueceu, não é?

- O quê? - respondeu Gillian, de uma forma irônica não comece novamente com isso! Sabe muito bem que não gosto de me prender ao passado.

- Sim. interrompeu a amiga mas talvez o passado ainda te traga tantas lembranças que fica impossível se desligar dele. Não precisa fingir comigo, Gillian, sei o quanto o amou...

Neste momento, Piper passou correndo entre as duas levando junto a toalha rendada que cobria a mesa ainda desarrumada. Gillian fez um gesto com os braços, ignorando se a causa da sua impaciência era a brincadeira da filha ou os comentários da amiga; ou ainda, o incômodo desconfortável dos sentimentos que embora mornos, se recusavam a desaparecer de seu coração. Suas reflexões foram interrompidas pela voz suave da amiga que a observava e que carinhosamente colocara seu braço nos ombros de Gillian.

- O David ainda é muito importante pra você. Não é mesmo?

Gillian se afastou dela e acrescentou.

- Vamos acabar com esta conversa porque temos ainda muita coisa a fazer! Vamos, vamos!

A noite estava fria mas ainda assim agradável, quando começaram a chegar os convidados. Gillian estava com um vestido branco, que brilhava a cada movimento de seu corpo esguio e miúdo. Apenas um colar de pedras transparentes ornava seu colo e seus cabelos esvoaçavam teimosamente sobre seu rosto levemente maquiado. Seu sorriso chegava antes dela e junto com Piper, com um vestido rosa pálido, ela recebia seus amigos com a simpatia habitual e cada brincadeira, ela coroava com sua gargalhada contagiante.

A noite de Natal estava apenas começando mas prometia ser perfeita.

Após a ceia, as crianças correram ansiosas para procurarem seus presentes e a algazarra foi geral.

No momento em que todos brindavam com champanhe, uma copeira da casa veio avisar Gillian de que havia um homem no portão da casa, com as mãos ocupadas com um buquê de flores, e que o mesmo não queria entrar.

Por um momento, Gillian sentiu suas mãos frias e resolveu atender ela própria a tão inesperada visita. Do local do jardim em que estava, não lhe era visível a entrada da casa e o caminho até o portão parecia não terminar nunca. Por um segundo ela desejou que David estivesse lá, mas quando lá chegou, sentiu-se um tanto boba por ter pensado tal coisa.

"É apenas um entregador de flores." pensou ela, como se o fato não fosse estranho àquela hora da noite, mesmo uma noite especial.

Gillian agradeceu ao homem e buscou um cartão no meio das rosas vermelhas. No envelope ela leu o seu nome e ao abrir, ela recebeu o seu presente:

"Gillian, minha doce parceira, como eu gostaria de lhe dar um beijo especial nesta noite!

Nossos caminhos, um dia tão próximos, se afastaram.

Não guarde mágoa de mim. O tempo que passamos juntos foi maravilhoso! Serei sempre, mesmo de longe, um amigo incondicional e se outra vez nossos destinos se unirem, não perderei a oportunidade de te amar novamente...

Este pensamento me atormentou um pouco toda a noite. E mesmo achando que não deveria, eu resolvi audaciosamente enviá-lo junto com essas flores.

É muito menos do que você merece... E muito mais do que eu deveria estar fazendo...

Feliz Natal, Gillian." David

fim da quarta parte

 

Quinta Parte

Autora:Wan

 

A reunião e comemoração da data cristã com os familiares e amigos e sua amada filha Piper, a haviam deixado imensamente feliz. Agora, porém, está longe de todos, do burburinho, das luzes, dos papéis brilhantes dos presentes, da árvore de Natal colorida, iluminada e imensa ao canto da espaçosa sala.

Havia passado a correria alegre das crianças, o reboliço que haviam causado com sua euforia.

E então suspira agora, sozinha, em seu quarto.

"A minha pequena filha amada. O doce fruto de uma paixão. E aquele que ajudou-me a gerar esse fruto? Onde estará neste momento?" - suspira e coloca-se diante da janela, olhando o escuro céu da noite gelada.

A neve havia parado de cair, deixando sua brancura por toda parte. Os alvos pedacinhos sobre o parapeito da janela brilham ainda à luz do lustre aceso no ambiente silencioso.

Ela afasta-se da janela, olha pensativamente para algumas taças colocadas sobre uma pequena mesa em seu luxuoso quarto de dormir. Toma uma garrafa e, lentamente, vai colocando numa das taças uma borbulhante e dourada bebida.
Toma um gole, saboreando-lhe com prazer.

Seu pensamento voa para longe, lá onde somente o coração pode desvendar o caminho.

E ela o vê. O homem amado. Vê o jeito dele, seu andar balançado, o cabelo castanho um pouco despenteado, aquele rosto que a fascina e o olhar que a intriga. Aquele olhar que deseja sempre aprofundar-se no mais íntimo do seu ser. Ele. A sua paixão. Mas também o seu algoz.

Ela passa, lentamente, os dedos por sobre a beira da taça. Olha para ela, como que, desejando ver, ali dentro daquelas borbulhas, algo que lhe traga uma alegria diferente daquela que tivera no decorrer do dia e da noite.

Nesta madrugada solitária, só quer agora é pensar, poder deixar correr solta a imaginação e voltar a sentir aqueles braços quentes e cheios de vibração daquele homem que tanto ama!

Num ímpeto, sem mais pensar, leva aos lábios todo o conteúdo da taça.

Fita-a, com os olhos brilhantes, onde as lágrimas já avisam que vão chegar. Seus lábios movimentam-se, distendendo-se num gesto de choro. Ela sente que de lá do âmago do seu coração, vem o pranto. Pelo amado muitas vezes já havia chorado. Desde a sua mocidade. E não tem idéia de quantas vezes ainda o fará.

Continua fitando a taça ... vazia. Vazio também está o seu coração.

Vai até a garrafa e novamente enche a taça. Levanta-a até o alcance do olhar para apreciar, através da finura transparente do cristal, as pequeninas bolhas estourarem.

Em cada uma delas pode ver o rosto e o sorriso do seu amado.

Lembra do aconchego junto a ele nas horas em que se encontravam. Relembra aqueles beijos quentes, ardentes e ansiosos dele em momentos de suas vidas. Recorda, com um suspiro, o corpo desejoso dele a lhe procurar.

Ela segura a taça, olhando atentamente para o líquido dourado dentro dela e toma um gole, dois, três, quatro... sorve com sofreguidão o restante na taça.

Um soluço tímido quer sair de seu peito. Está triste. As risadas ou até as gargalhadas que lhe haviam saido horas atrás, facilmente pela garganta, são somente uma simulação. Um engano.

Agora, neste momento, tão sozinha, só quer parar. Tentar lembrar mais. Ou esquecer. Tantos anos de convivência que os haviam tornado um só ser. Tem certeza disso. Só que o destino é cruel. Ele é um verdugo. Que maltrata. Que fere... que faz sofrer.

Numa última tentativa de esvaziar da mente os pensamentos, enche novamente a taça de luzídia transparência.

Depõe a garrafa na mesa. Olha-a, atentamente. Seu olhar é severo para o recipiente, como se estivesse recriminando-o por fazê-la beber o seu conteúdo líquido embriagante.

Com a taça na mão vai até a janela. Abre-a Em fração de segundos atira todo o conteúdo da taça no ar.

O líquido atirado, como um raio desfaz-se em brilho sob o escuro da noite.

E ela, a mulher vivida, com garra, perseverante, atenta, batalhadora, sente-se desvanecer. Seus membros fraquejam, aquecem-se-lhe as carnes.

Ele coloca a taça na beirada da janela.

Dirige-se à cama.

Joga-se nela como está. Quer somente dormir, agora. Quem dorme, esquece. Ou talvez... possa até sonhar...!

Boa noite, Gillian!

Fim

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