DEVANEIOS...IMAGINAÇÃO...FANTASIA..SONHO...QUIMERA

 

CAPÍTULO EXTRA XXXII

 

COMO NOS VELHOS TEMPOS...!

 

Novembro 2002.

O teatro engalanado resplandece em luzes e em cores.

Grande estréia de uma nova peça.

Ele entrara, muito discretamente, esperando nem ser reconhecido, de pronto. Isso será imprescindível, a fim de salvaguardar a sua vida particular.

Mas, enfim, ali está, realizando um desejo intenso guardado há meses, dentro do seu ser.

As últimas cenas da peça quase nem podem ser assimiladas por ele, tamanha é a sua ansiedade de ver logo tudo ser concluído.

Seu olhar atento dirige-se somente para aquela figura pequena, ágil, bela e suave sobre a dimensão do imenso palco.

Sente seus ouvidos deliciarem-se com a voz que, durante tantos anos, permanecera ao seu alcance, no dia a dia.

Aplausos. Ovação.

Ele parece despertar do seu torpor maravilhado.

As imensas e pesadas cortinas de veludo se fecham. Os aplausos continuam. As cortinas se reabrem, ainda sob os aplausos entusiásticos do público, para em seguida fecharem-se, mais uma vez.

A platéia levanta-se, aos poucos, para sair.

Ele permanece sentado, aguardando, nem sabe o que. Talvez a sua própria reação diante da emoção que o invade neste momento.

Ele fecha os olhos e pensa, por alguns segundos. Está determinado a arriscar e fazer algo importante para si mesmo, porém não pode decidir-se, instantaneamente; há um conflito abalando os alicerces dos seus sentimentos.

Levanta-se, por fim. Ainda a luta interior: deve ir ou não?

Os corredores apinhados fervilham de convidados e atores.

Abraços. Saudações.

Ele deixa passar os primeiros minutos daquela grande euforia.

Aos poucos, vai se perdendo o excesso de pessoas no lugar e diminuindo o som de vozes.

Ele olha para o que tem às mãos. Maravilhosas, úmidas e perfumadas rosas, para simbolizar a beleza e o frescor de quem as vai receber.

Caminha, agora, em passos um pouco menos lentos.

À sua frente está a porta de um dos camarins principais da casa de espetáculos.

Bate com os nós dos dedos na madeira ornamentada.

A porta é aberta por uma mulher de olhar enfadado.

A atriz está desfazendo um pouco a maquilagem. Acabara de usar um creme de limpeza para retirar a pintura da face. Passa, agora, levemente, por sobre os lábios, um lenço de papel.

Ela volta-se para ver quem a cumprimenta. E não esconde sua surpresa.

Ela corre a abraça-lo.

Alguns segundos de silêncio.

O profundo e calmo mar azul dos olhos dela une-se à verde campina de um dia ensolarado dos olhos dele.

Ela esboça um sorriso, que, aos poucos, transforma-se numa risada cristalina.

Ela vai dando um passo, para afastar-se dele, mas este segura-lhe a mão, impedindo-a

Ela pega as flores da mão dele. Encosta o ramalhete ao coração, que bate descompassadamente, neste momento.

Sem palavras para pronunciarem. Os olhares continuam fixos um no outro, deslumbrados pelo reencontro.

Ela chega até o extenso toucador e coloca sobre ele o buquê de rosas. Logo vai até a porta, girando a chave na fechadura.

E, num ímpeto, lança nos braços dele a sua pequenez, agarrando-o, com os braços enlaçados em seu pescoço.

Ele procura-lhe a boca, doidamente, ávido e voraz.

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